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Uma História de amor – Viver em Ipanema –  Meus 15 anos

Eu de vestido e tiara rosa ao centro da foto

 

Quando revisitamos antigos álbuns de família, reencontramos o passado. Às vezes, não nos recordamos, por inteiro, do momento vivido naquele período, mas acabamos interpretando a imagem e transformando uma lembrança em história. Mil novecentos e setenta e oito foi o ano de minha festa de 15 anos. Residindo no bairro Ipanema desde a infância, a comemoração não poderia ser em outro lugar.  Meus pais acertaram tudo e diferentemente das demais festas daquela época (pois não quis debutar), a minha foi no Clube Regional de Porto Alegre, hoje parte da sede da AABB, na Avenida Coronel Marcos. O espaço disponibilizava uma infraestrutura adequada para uma festa jovem, com salão de festa e pista de dança, bem ao gosto dos adolescentes.

Ao ritmo dos “Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta arrepiando nas pistas ao som dos Bee Gees, nos divertímos de forma saudável e alegre. Era a época das Frenéticas, das sandálias plataformas, das meias coloridas de lurex e das blusas tomara-que-caia, resultado da influência da telenovela brasileira da época, “Dancin Days” , de Gilberto Braga, produzida pela Rede Globo.

Na política, ainda se vivia sob a égide da ditadura militar com episódios de repressão e violência, porém, acontecia, nos bastidores dos quartéis, a preparação, lenta e gradual do fim do regime. Em dezembro de 1978, o presidente Ernesto Geisel revogou o AI-5, dando um passo decisivo no processo de redemocratização do país. E ao passar a faixa para o seu sucessor, João Batista Figueiredo, iniciava-se um novo período na história do Pais. E nós, ainda muito jovens, vivíamos o momento sem prestar muita atenção a esses episódios.

Na economia, os principais problemas continuavam sendo o crescimento da taxa de inflação e da dívida externa, resultado ainda da crise do petróleo de 1973, quando a OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo, triplicou o preço do barril, ocasionando uma crise sem limites. Entretanto, no Brasil, todos os problemas, decorrentes da crise, eram mascarados pelo Milagre Econômico, fruto da propaganda nacionalista do Regime. Foi nesse período que, apesar da convivência comunitária do bairro (escola, igreja, praia e mercadinho), começamos a sentir, de fato, os problemas decorrentes da recessão.

Na música, foi a década da discoteca, devido ao surgimento do “dance music”, um ritmo que, ao resgatar o desejo pela dança, transformava atores em celebridades, como John Travolta. Era uma febre dançante que assolava o mundo.  Importava o ritmo, o balanço e a quantidade de decibéis. E eu vivia as alegrias e os sonhos de minha primeira festa, embalada pelo ritmo das paradas de sucesso, entre elas, a rainha: Donna Summer. Amigos, o primeiro namorado, o longuinho rosa, o bolo com as quinze velinhas, tudo fazia parte daquele cenário de sonhos.

Hoje, quando quero recordar aqueles momentos juvenis, abro meu álbum de retratos e ao folhear as páginas (já) amareladas e gastas pelo tempo, lembro-me daquele clube à beira do Guaíba, da alegria da festa, do som vibrante, dos doces e dos figurinos coloridos da época.  Retornam, também, vivas, à lembrança, as imagens das pessoas queridas que já se foram, como meu pai, meus avós e amigos. A saudade bate forte e as lembranças remetem-me para aquele lugar mágico e para aquele momento inesquecível. Assim, como “Em busca do tempo perdido”, onde Marcel Proust recorda e recupera sua vida através de fotos antigas, delirando entre a realidade e a ficção, misturando os personagens da obra com as memórias de sua infância.

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