Trenzinho da Tristeza

Trenzinho da Tristeza

O TRENZINHO DA TRISTEZA

No final do século XIX começou a funcionar, em Porto Alegre, uma linha férrea que servia aos bairros margeados pelo rio Guaíba. Também conhecida por Estação Ferroviária do Riacho, porque ficava à beira do Arroio Dilúvio, a linha do trem foi muito importante, pois, além de transportar passageiros e cargas, constituía um dos melhores passeios turísticos de Porto Alegre. O “trenzinho”, como era conhecido, consistia em uma locomotiva maria-fumaça pequena que puxava dois ou três vagões e que trafegava de duas a quatro vezes por dia, dependendo da época do ano. Historiadores são unânimes em afirmar que foi devido ao trem que alguns bairros da Zona Sul de Porto Alegre progrediram. Convertendo-se em zonas de veraneio da cidade, os bairros Tristeza e Ipanema ficaram conhecidos pela população da época, devido às suas confortáveis e excelentes residências de verão, quase todas em forma de chalé e de frente para o Guaíba. São famosas as Mansões com praia particular da Pedra Redonda, onde veraneava uma elite Porto-Alegrense nos anos 20 e 30 do século passado.

Inicialmente, a estrada de ferro foi usada para transportar pedras e os recipientes do serviço de Asseio Público da cidade, só mais tarde é que a mesma foi utilizada para passageiros. A linha servia aos moradores que residiam entre os bairros do Riacho (atualmente Cidade Baixa) e do Dionísio (também conhecida por Ponta do Dionísio no bairro Assunção). Tempos mais tarde, a estrada foi estendida até a Praia da Pedra Redonda, vizinha à Ipanema, e com uma extensão para a Vila Nova. Em torno de 1925, o então Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Sr. Borges de Medeiros, decidiu dar início à grande obra no Cais, sendo assim, muita pedra foi levada das pedreiras da Zona Sul ao Centro da cidade pelo trem. Tempos mais tarde, eram os desagradáveis cubos malcheirosos que faziam a viagem no trenzinho. Provenientes das casas dos antigos arrabaldes, que não tinham esgoto, fossas ou casinhas com buracos nos fundos de quintal, os cubos eram transportados diariamente em vagões do trem até o rio. Desta forma, a estrada de ferro tinha também uma função sanitária. O trajeto percorrido por esse material ia até a chamada Ponta do Asseio ou do Melo, onde ficava o Antigo Estaleiro Só no bairro Cristal. Dentro dos vagões, iam grandes cilindros, com todo o conteúdo “fedorento”. Os cubos, fornecidos pela Intendência Municipal da cidade, eram colocados sob a tábua de assento dos banheiros da época, para serem usados e depois de cheios eram encaminhados até a estação do trem mais próxima. Logo que chegava ao seu destino, o conteúdo era prensado e descarregado diretamente no rio Guaíba. Os mesmos cubos, também conhecidos por “cabungos”, que levavam os dejetos, após serem descarregados e limpos com creolina, faziam a viagem de volta.

Carinhosamente conhecido como o “Trenzinho da Tristeza, o trem trafegava lentamente, passando por diversos bairros da capital, entre eles, o Menino Deus, o Cristal, a Assunção, a Tristeza, a Vila Conceição e a Pedra Redonda. Faltou pouco para ele chegar até o Ipanema. O início da linha do trem podia ser na Estação da Ponte de Pedra ou do Riacho, na Cidade Baixa. No local existia um pavilhão de alvenaria que também servia para guardar carvão e peças de reposição do trem. Ao lado ficava o ponto de embarque e desembarque de passageiros. Alguns anos depois, foi transferida para a Estação Ildefonso Pinto, perto do Mercado Público, onde hoje está a Estação do TRENSURB. A partir deste local, se daria também a ligação com a Estação Central de Porto Alegre e de onde saíam os trens da VFRGS para o interior do Estado.

O trem tinha dois horários de saída, um às 08h e o outro às 16h30min, porém nos domingos, quando a procura era maior, em função dos banhos de rio e dos piqueniques na praia da Pedra Redonda, saía em mais horários, às 10h e às 14h. O trajeto da Maria Fumaça, quando saía do Centro de Porto Alegre, era o seguinte: percorria paralelamente o Cais do Porto, fazia a volta na Usina do Gasômetro e seguia pela Avenida Washington Luís, quando então, cruzava o Arroio Dilúvio sobre uma ponte de ferro construída especialmente para aquele fim, a aproximadamente uns cem metros do rio onde o Dilúvio desembocava. Passando para o outro lado, chegava à Estação Riacho, onde, então, os passageiros esperavam por ele e seguia seu percurso pela Praia de Belas afora, passava por uns trapiches, pelos quartéis da Brigada Militar e logo a seguir fazia outra parada: em frente ao Asilo Padre Cacique. Sempre margeando o rio, seguia o trenzinho, balançando e soltando suas fagulhas até o próximo ponto de parada: a Ponta do Melo ou do Asseio. Logo a seguir, a locomotiva cruzava o bairro Tristeza, chegando até seu final de linha na Pedra Redonda.

Porém, para o trem chegar até a Praia da Pedra Redonda, foi preciso um grande investimento. Muitas obras foram feitas envolvendo escavações e explosões no morro onde hoje se encontra a Vila Conceição. Grande quantidade de pedra e parte da mata foi retirada da região para que a estrada de ferro pudesse ser construída. Um fosso de granito com 800 metros de comprimento por 10 de altura foi escavado desde o início da Vila até a beira da Praia, criando um grande paredão por onde passava o trenzinho. A obra no morro durou cerca de três anos.  Atualmente, no espaço por onde passava o trem, encontra-se a ponte de pedra que dá acesso à Vila Conceição.

Essa foi a história do trem da Zona Sul, ou o trenzinho da Tristeza, como muitos o chamavam, uma locomotiva Maria Fumaça que funcionou regularmente até 1932 e que durante muito tempo percorreu diferentes paisagens e caminhos por uma Porto Alegre Antiga. Sempre me lembro das divertidas histórias que minha avó contava sobre seus passeios de trem até a Pedra Redonda. Não ia para tomar banho na praia, e sim para saborear os sorvetes e a gasosa, servidos no local. Quando ainda era muito pequena, vovó aguardava o trenzinho, que passava em frente a sua casa ali no bairro Cristal.  Georgina esperava o trem para viajar juntamente com seu pai que era o maquinista naqueles anos de 1920. Tempos mais tarde, continuou a fazer a mesma viagem, só que agora, mais mocinha, a finalidade era outra: encontros e namoros com os rapazes da Via Férrea. Era o matraquear das rodas nos trilhos, embalando os sonhos das mocinhas românticas à procura de seus pares, quem sabe, antes que o sol se pusesse no horizonte, e o trem retornasse à cidade.  Conforme ela mesma nos dizia: “tempo bom aquele”!

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