Na foto estão: nossa empregada, minha mãe, minha tia, meu irmão e um amigo, minha prima e eu e minha outra tia.

Passeio de canoa pelo Guaíba (eu de conjunto listradinho e meu irmão de calças curtas)

Ao meu irmão …

Eu queria ser criança novamente, correr despreocupado pelas ruas, soltar pandorgas, me armar de bodoque, pegar passarinho, dar mergulhos no rio, fugir da escola. Brincar de forte apache, ser de novo um general condecorado, um Custer no Sétimo Batalhão comandando a infantaria mirim, enfrentando Touro Sentado e Cavalo Louco. Tocando a alvorada, liquidando sioux de plástico, fazendo soltar o Rin-Tin-Tin com sua pintur a descascada sobre um Jerônimo não menos fantasioso. Não, pensando melhor, um jogador de futebol, vestir novamente aquela camiseta surrada, batida e chutar uma bola de sonhos perdida na minha doce e maravilhosa infância.

Queria poder resvalar meus pés no limo das pedras e cair na água acidentalmente, tomando um banho imprevisto, evitando as chineladas. Pisar na areia escaldante, sentir o corpo queimando pelo sol de janeiro, subir no mata-olho e brincar de upa-upa cavalinho. De chofer, ganhar os galhos do cinamomo e guerrear os inimigos da rua. Melhor seria subir o morro da Veia Joana e assustar os bodes e as cabritas, depois, lá no topo, sentar e apreciar a paisagem do rio. Seria tão bom, poder novamente, espreitar as meninas da escola pra grudar carrapichos e, na correria do polícia-ladrão, na hora do recreio, desmanchar as tranças brilhantes e amarelas rematadas por fitas brancas.

Eu queria sentar na varanda e ver com o vovô o ipê amarelado de flores na primavera, o sol sendo tragado pelo Guaíba, redondo como um botão vermelho, ouvir o toque de recolher do sabiá, as garças planando e o cardume da croa assanhado, pedindo covas para acabar no balão ou na salga. Eu queria voltar a apanhar de panos de prato encharcados, correr das cintas de couro na janela do vô Gringo na hora da sesta. Eu queria que hoje fosse sexta-feira santa, mas em mês de abril que é tão bonito, para ver de novo as canoas aportarem repletas de peixe vivinho, os anzóis massacrados de isca de lambarí. Depois, comer apressado um pintado com pirão tirado da enorme panela de alumínio da vó Jorja. No domingo, término do milagre bíblico, com a cerração, procurar no varal das redes de pesca, os ninhos deixados pelo coelhinho.

Ah, eu queira tantos momentos perdidos da minha infância passada, que já não sei mais. Eu queria poder esquecer que um dia o tempo passou e, que, eu, contra a minha própria vontade comecei a crescer, fiquei adulto. E, foi, infelizmente, nesta fase que passei a entender e a sentir as tristezas, as dores do mundo. Eu queria poder esquecer que um dia deixei para trás meus anos felizes de meninice para tornar-me gente sofrida e problemática. Fiz-me inteligente e amargurado.

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