Divulgação do espetáculo de Lya no Theatro São Pedro

Durante muitos anos de minha infância e adolescência, sonhei com a residência da Vila Clotilde no Bairro Ipanema. Um imponente casarão encravado em meio à vegetação, serpenteado por um rio e estradinhas que pareciam feitas de brinquedo. Ao fundo, lá longe, a linda residência lembrava os castelos das princesas e príncipes encantados. Era ali onde minha imaginação se experimentava mais desafiada e minha vida de menina se convidava a encontrar outros mundos que lhe dessem mais fantasia e prazer. Mas, o que era prazer não deixava de ser aprendizagem, pois durante muitos anos desejei conhecer a história daquela morada e de seus personagens numa fantasia repleta de outros mundos. Tornei-me historiadora e hoje pesquiso a Zona Sul de Porto Alegre. E, para minha grande surpresa, não é que encontro-me com meu sonho de menina? Conhecer e escrever sobre a princesa daquele castelo encantado: Lya Bastian Meyer – a grande dama do ballet clássico do Rio Grande do Sul.

1. Introdução

Por muito tempo, as mulheres foram relegadas ao silêncio e à invisibilidade.  E isso se deve ao fato de elas terem estado, ao longo dos anos, em um ambiente familiar privado. O espaço das sociabilidades pertenceu, quase sempre, aos homens, vistos como os representantes da humanidade.

Por estar, a maioria delas, ausentes dos espaços públicos, as mulheres também estiveram fora das fontes escritas e visuais. Ao longo da história, as mulheres, em suas tentativas de aparições públicas, inspiraram medo e receio ao sexo oposto. Ao longo do século XIX, com o surgimento das manifestações feministas, ocorre uma reatualização desse medo nos homens.

Os (poucos) vestígios das mulheres comuns foram apagados e desprezados (muitas vezes por elas próprias), e isso as relegou ao esquecimento e ao silêncio profundo. Um dos motivos para esse silêncio na historiografia é resultante do exclusivismo político, econômico e social masculino, onde a história priorizada é a das personalidades femininas, ou, aquelas idealizadas pelos homens, por sua beleza, virtude ou heroísmo.

Somente nas últimas décadas do século XX é que a história das mulheres se definiu. A política feminista foi o ponto de partida, pois as integrantes do movimento reclamavam uma história em que houvesse heroínas, demonstrando a atuação das mulheres na sociedade. Lutavam também para que a opressão e a discriminação que as sufocavam fossem denunciadas pela história. Assim, é com os movimentos feministas das décadas de 1960 e 1970 que tem início uma nova constituição da história das mulheres como campo específico do conhecimento.

A partir desse momento histórico, tem-se o registro oficial da presença das mulheres em outros ambientes, não somente os domésticos. Michelle Perrot, especialista na história das mulheres, faz emergir, por meio da pesquisa, narrativas históricas com destaque para o papel atuante dessas mulheres como agentes sociais de sua própria história. Mary Del Priore norteia sua pesquisa pelo mesmo caminho. Na “História das Mulheres no Brasil” (2011), Priore traça os perfis femininos desde o Brasil Colônia até os dias atuais, procurando enfatizar a complexidade e a diversidade das experiências e das realizações vivenciadas pelas mulheres ao longo dos anos.

Com uma circulação mais ampla das mulheres nos meios públicos e sociais, uma das primeiras conquistas femininas e também uma das que provocaram maior resistência, ampliam-se as possibilidades para a construção de novas narrativas. O reconhecimento e a divulgação dessas mulheres, como Lya Bastian Meyer, uma pioneira na dança clássica do Rio Grande do Sul, significa dizer que entre o público e o privado, entre os homens e as mulheres, as divisões se extinguem, recompondo-se, assim, uma nova ordem, pautada na possibilidade de descobertas para o pesquisador e, consequentemente da construção de novas narrativas

2. LYA BASTIAN MEYER: PASSOS DE UMA PIONEIRA

2.1 PRIMEIROS TEMPOS

Primeira bailarina clássica do Rio Grande do Sul, Eliane Clotilde Bastian Meyer, mais conhecida por Lya Bastian Meyer, foi também pioneira no ensino da dança no Estado. Coreógrafa dos próprios números, ela se apresentava no Brasil e no exterior. Chegou a dançar em Berlim, pouco antes da Segunda Guerra e a receber um convite para se radicar no 3º Reich.  Foi, reconhecidamente, a bailarina número um do Theatro São Pedro nos anos 1930, onde apresentava os fundamentos da escola russa de dança, e foi por ela, que a cidade de Porto Alegre conheceu o verdadeiro balé clássico.

Lya brindava as plateias dos teatros com um fino encantamento artístico e um aprimoramento estético que não perdia para os melhores grupos de dança dos Estados Unidos e da Europa. Sempre atenta e superando-se, a bailarina dominava todos os seus movimentos, e assim, contava na linguagem dos gestos e no simbolismo dos ritmos coreográficos, a história do próprio balé.

A dança clássica, também conhecida por balé, é uma representação cênica que reúne uma série de técnicas e movimentos específicos. É a combinação da dança, da música, dos cenários e figurinos, os quais resultam em uma interpretação visual completa. A princípio, o balé era apenas um divertimento de salão. Aos poucos, a dança se estilizou, transformando-se em teatro com coreografia montada e executada por profissionais. Entre esses profissionais estão os bailarinos clássicos, como Lya.

A arte de dançar remonta ao homem primitivo. Desde a pré-história o homem sempre procurou a dança em situações festivas ou religiosas. Na idade média, ela acontecia nas ruas, onde atores e bailarinos interpretavam espetáculos nas feiras e nos limites dos castelos feudais. Por seu caráter pagão, o teatro e a dança foram combatidos pela igreja. Com o renascimento, as concepções de mundo e de arte alteram-se. O desenvolvimento das cidades e do comércio amplia o imaginário europeu. Uma próspera classe burguesa vai apreciar a dança e os espetáculos, entre eles o teatro. O balé surge como uma arte dessa elite, apresentando em sua vestimenta, roupas e ornamentos pomposos, os quais agradam essa burguesia ascendente.

O balé clássico, tal como é conhecido hoje, surgiu na Itália no final do século XV. Tempos depois foi levado para a França por Catarina de Médicis por ocasião do seu casamento com Henrique II. A França transformou-se, então, no grande palco do balé mundial. Em 1661, foi fundada a Academia Real de Dança, atualmente conhecida por Balé da Ópera de Paris. O próprio Rei Luiz XIV, já em criança, começou a ter aulas e, aos 12 anos, fez a sua primeira apresentação.

No final da era romântica, o centro mundial do balé passou de Paris para São Petersburgo, na Rússia, onde surge a era do balé moderno com a conhecida Escola Russa. Patrocinada por Catarina, a Grande, a capital russa torna-se também uma capital cultural. Após a Primeira Guerra Mundial, o balé russo fomentou sua expansão por todo o mundo, tornando-se o celeiro de grandes nomes da dança clássica. E será essa escola, a grande formadora dos conhecimentos de dança de Lya Bastian Meyer.

Filha única de Oscar e Clotilde, Lya Bastian Meyer nasceu em 23 de janeiro de 1911, em Porto Alegre. Ao lado de seus pais, Lya teve uma infância feliz e tranquila, desfrutando dos prazeres e das alegrias da chácara na Zona Sul de Porto Alegre[1]. Proveniente de uma família de boa posição social e financeira, a menina foi envolta em um mundo de conforto, carinho e instrução. Estudou nos melhores colégios da cidade e do exterior, o que lhe possibilitou, ainda muito jovem, a descoberta da dança.

Primeira gaúcha a cruzar o oceano para estudar balé, Lya era uma promessa diante dos olhos especialistas de Nenê Dreher Bercht e Mina Black Eckert, fundadoras do Instituto de Cultura Física do Rio Grande do Sul. O grupo se dedicava a esculpir jovens com sessões de ginástica artística e preparar bailarinos para saraus e festas. Após uma de suas aulas, os professores recomendaram aos pais de Lya: “Esta menina tem que ir para a Alemanha se aperfeiçoar”. Assim, em 1928, com apenas dezessete anos, embarca para a Europa a fim de se aperfeiçoar naquilo que mais gostava: o balé clássico.

Em plena adolescência, Lya iniciou seus estudos com Eugénie Eduardowa, ex-primeira bailarina do Marien-Theater de São Petersburgo, em Berlim. Tempos depois, continuou se aperfeiçoando com Rita Pokst, da ópera de Wiesbaden, Alemanha, e com Tatiana Gsowski, coreógrafa russa, residente em Berlim. Após dois anos de aprendizado no exterior, Lya retorna ao Brasil, trazendo na bagagem a técnica e a graça do balé russo, considerado o melhor do mundo. Viajaria, novamente, para a Alemanha, no final da década de 1930, onde realizou vários recitais, apresentando criações próprias.

“A bailarina brasileira Lia Bastien Meyer apresentou-se aos berlinenses com bailados de Albeniz, De Falla e Guahali; temos tido ocasião de apreciar repetidas vezes a ‘Dança do fogo’ do ballet ‘El Amor Brujo’, mas raras vezes ou mesmo nunca o vimos numa tão excelente e pessoal interpretação, com o aproveitamento de cada compasso, de cada som como o conseguiu Lia Bastien Meyer” (General Anzeiger, Berlim, 8 de fevereiro de 1938).

Em 1938, em plena ascensão nazista, teve aulas com Mary Wigman, a precursora do balé moderno na Alemanha. Com total liberdade de estilo, sem os rigores da técnica clássica, apresentou a coreografia “Batuque”, com música do maestro Radamés Gnattali, em espetáculos públicos e gratuitos. Mais tarde soube que eram shows patrocinados pelo partido nazista. A partir do grande sucesso nos palcos de Berlim e inumeráveis elogios da crítica alemã, Lya recebeu convites para permanecer na Alemanha. “A sra. Lia Bastian Meyer professora de dansa nesta capital, fotografada num numero de Batuque apresentado em Berlim quando de sua viagem a Europa. A sra. Lia Bastian Meyer reabriu seu curso de dansas no dia 20 do corrente.” (Revista do Globo – ANO XI – 248- 1939).

2.2 A TÉCNICA PERFEITA

Lya Bastian Meyer costumava presentear seu público com os “Serões Coreográficos”, onde apresentava uma série de diferentes coreografias, entre elas, o “Quebra-Nozes” de Tschaikowski, o “Les Sylphides” de Chopin”, o “Largo do Haendel”, o “La Boutique Fantasque” e o “El Amor Brujo”. Esse último, a bailarina, no auge de sua performance, encenou também em Berlim, no Theatro Volksbuhne em 1938, transformando-se em um sucesso de público e de crítica.

O fogo do ballet já demonstrado em números anteriores atingiu o auge em Amor Brujo. O serpentear dos braços e mãos, conseguindo imitar fantásticas labaredas, demonstraram um perfeito desenvolvimento técnico, um domínio natural do corpo através do palpitante ritmo empreendido por ela. Uma interessante personalidade. Sua dinâmica interpretação baseada numa técnica perfeita enobrece ainda mais a sua arte. Maravilhosos os gestos de braços na dança do fogo. Um quadro de beleza vital, de um forte colorido da raça brasileira. [1]

Em “Sheerezade” de Rimsky Korsakoff, Lya compõe o ambiente oriental que sempre a fascinou. Querendo ser uma intérprete fiel de Rimsky, a bailarina lia todos os contos orientais que inspiraram o grande compositor russo.  Na coreografia há uma perfeita combinação entre melodia e movimento, pois conforme Lya:

O coreógrafo deve aproveitar as suas bases sólidas, pois a música contém toda a movimentação voluptuosa das linhas do corpo feminino, o que é muito natural, pois é no Oriente que a mulher esplende sua maior feminilidade. A técnica da dança, embora não possa fugir ao academicismo, tem de evocar toda a riqueza oriental, que reside nos contos das Mil e Uma Noites. (…) Sherazade simboliza a vitória da argúcia feminina sobre a força masculina[2].

A concepção e execução das apresentações da bailarina obedeciam sempre a um estilo acadêmico e a uma disciplina adquiridos na Europa, com os melhores dançarinos e coreógrafos da Alemanha. Apesar disso, era um ballet com uma liberdade de expressão a qual resultava sempre momentos de rara beleza e impregnados de uma espiritualidade pelas impressões que transmitia ao público. Não foram raras as ocasiões em que a plateia deixava o teatro impressionada com o desempenho da bailarina. Conforme jornal da época: “O público festejou com nutridas e merecidas palmas todos os participantes do magnifico recital que tão bela impressão deixou” [3].

Lya também encenou “Joana D’Arc” para um Teatro São Pedro lotado. Uma dinâmica interpretação baseada na técnica perfeita de gestos e movimentos, o que tornava seus espetáculos, inesquecíveis obras de arte. No auge da carreira, Lya se apresentou em várias capitais brasileiras, entre elas, Florianópolis. ” Finalmente hoje, teremos a oportunidade de assistir a um espetáculo inédito em Florianópolis – Lya Bastian Meyer e sua escola de bailados clássicos. E para nós, motivo de justa satisfação, ver reaparecer nos palcos da capital, artistas de tão elevado grau teatral”[1]. E Curitiba, no 16º Festival da Sociedade Cultura Artística Brasílio Itiberê. “Carnaval com música de Schumann pela Escola Oficial de Dança do Teatro São Pedro de Porto Alegre, dirigida pela bailarina LYA BASTIAN MEYER, com o concurso Décio Stuart, primeiro bailarino do Teatro Municipal, de São Paulo. Orquestra sob direção do maestro Romeu Fossati. Curitiba, 15 de agosto de 1945, às 21 horas”[2].

3. ESCOLA DE BAILADOS LYA BASTIAN MEYER

Mesmo depois de casada, Lya continuou dançando e viajando para o exterior. No finalzinho dos anos 1930 embarca novamente para a Europa para cursos de aperfeiçoamento na dança. Em uma Alemanha Nazista se preparando para a guerra, que Lya encontra novos e fundamentais ensinamentos com Mary Wigman, a precursora do balé moderno.

O grande sucesso da bailarina, sempre aplaudida e elogiada pela crítica, levou-a a criar sua escola, a primeira oficial de dança no Rio Grande do Sul. Lya foi a responsável pela formação de uma geração de dançarinos clássicos, especialmente entre as décadas e 1930 e 1950. Numa época em que as moças eram preparadas apenas para o casamento, sem chances de um crescimento profissional, a bailarina abriu espaços para as novas gerações no balé.

A dança, cujo preconceito estava no fato de as meninas – senhoritas recatadas da sociedade, mostrarem as pernas em cena, se apresentava como um árduo caminho para aquela que não se intimidava e fazia das dificuldades um desafio maior. Com um grupo numeroso de alunas, começou a coreografar e montar espetáculos, e com elas, viajava e se apresentava também pelo interior do estado. Bagé, Pelotas e Santa Maria foram algumas das cidades que tiveram a oportunidade de assistir à genialidade da bailarina.

“Santa Maria, 8 (C.S.) – Chegou a esta cidade a conhecida professora de dança, Lya Bastian Meyer, com vinte de suas alunas. (…) No Cinema Imperial, onde se dará a noitada de arte, já tão ansiosamente esperada, será colocada uma placa comemorativa. Falará, no ato inaugural, saudando tão lídima representante da arte difícil de bailar bem”[3].

Os ensaios, geralmente aconteciam nos jardins da “Vila Clotilde”, a residência da bailarina no Bairro Ipanema. A estes Lya nomeava de “O Bosque Encantado”. Na realidade, nasceu na chácara em Ipanema, o seu gosto pelas artes e pela natureza, mediado pela disciplina e pelo talento de jovem oriunda de imigrantes alemães e de uma classe social em ascensão.

“Banhada na luz da tarde primaveril, as graciosas raparigas de pés alados, tomadas do delírio da dança, evoluem à beira do lago. (…) isto, somente nas horas de lazer, pois o que a foto não mostra são as horas de trabalho, de exercício, este agora ainda mais intenso desde que a Escola de Bailados Clássicos de Lia Bastian Meyer impôs-se à bela, mas árdua missão de formar as primeiras bailarinas profissionais rio-grandenses”[4].

Repetidas vezes, Lya e suas alunas eram fotografadas pelas lentes de fotógrafos de jornais e revistas da época. A imagem congelada no tempo transmite hoje informações de uma era que vai longe. Um verdadeiro encontro com o passado. “No maravilhoso parque da Vila Clotilde, no Ipanema, a professora Lya Bastian Meyer e duas das alunas mestres de sua esplendida Escola de Bailados dançam sob o sol, numa clara evocação da Grécia” [5].

A chácara e a mansão da Vila Clotilde ainda existe e atualmente servem de moradia a alguns descendentes, entre eles, Henrique, filho de Lya, sua esposa Maria Helena Luce Schmitz, seus filhos e netos. Sobre isso recorda Maria Helena: “Faz 39 que eu moro aqui. Durante muitos anos vivi com minha sogra, a bailarina Lya Bastian Meyer”.[1]

As quarenta e cinco alunas da Escola de Bailados de Lya foram coadjuvantes nas temporadas líricas da cidade, porém, tempos mais tarde e acompanhadas por grandes orquestras, eram sucesso em apresentações memoráveis nos palcos do Theatro São Pedro.

Num espetáculo que fará parte dos festejos da Semana da Pátria oficializado pelo Interventor Federal, Lya Bastian Meyer apresentará ao público PortoAlegrense, pela primeira vez, o belíssimo ballet “La Boutique Fantasque”, maravilhosa música de Rossini & Respighi, que faz reviver a época de 1890, no interior de um magazine encantado, onde se desenrolam fantásticos acontecimentos. (…) É de esperar-se, pois, que a noitada de sete de setembro, no velho e glorioso teatro da Praça da Matriz, constitua, entre nós, um sucesso sem par na história dos espetáculos de dansa do Rio Grande do Sul[2].

Nos anos 1930, com a administração de Alberto Bins (1928 – 1937), a cidade se renovava. Decorrente de um ciclo de desenvolvimento econômico do Estado, a capital experimentava um crescimento vertiginoso nas artes e na cultura em geral. A partir da remodelação da cidade, surge uma nova cultura urbana. Um novo espaço de sociabilidade burguesa. São novos hotéis, cafés, confeitarias, teatros e cabarés sofisticados para uma elite que crescia em torno das novas atividades comerciais e industriais. Em 1939 já são duas academias de dança na cidade. Além da escola da Lya Bastian Meyer, havia a Escola de Bailados Clássicos Tony Seitz Petzhold. Ambas, durante muitos anos, rivalizaram numa saudável disputa.

Lya manteve sua escola de bailado até 1959, quando então passa a se dedicar somente as aulas de ginástica na universidade, onde foi a pioneira também na ginástica rítmica, introduzindo-a na Escola Superior de Educação Física da UFRGS. Em 1970, aposentou-se, encerrando definitivamente suas atividades profissionais.  Pela contribuição ao balé no Brasil e pelo pioneirismo no Estado, recebeu a Comenda do Conselho Brasileiro de Dança, a última homenagem em vida.

Faleceu aos 95 anos em sua casa no bairro Ipanema, zona sul de Porto Alegre. Graças a ela, o balé criou raízes e se propagou pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil. Durante muitos anos, todos os movimentos de dança tiveram sua direta participação. Idealismo, coragem e talento, fizeram de Lya, com certeza, a número um nesta arte – a primeira dama do balé que encantou os porto-alegrenses. Lya Bastian Meyer será sempre um nome a ser lembrado. Será sempre uma estrela nos jardins da Vila Clotilde.

4. CONSIDERAÇÕE FINAIS

Durante muito tempo, a História foi escrita sob a ótica masculina e pela classe hegemônica. Portanto, esse tipo de estudo produziu um material bastante restrito, refletindo apenas a figura do homem como sujeito universal – suas relações expressavam somente uma versão da história. A figura da mulher ficou assim relegada a escassas aparições em função de ela ter estado restrita aos espaços domésticos, como a educação dos filhos e a atenção ao marido. As mulheres, ocupadas demais para serem percebidas pela história que, até então, se limitava a tratar da vida pública, domínio quase exclusivo dos homens não tinham voz.

Porém, os movimentos feministas, anunciadores de mudanças e  conquistas, mostrariam que a história poderia ser escrita de outra forma.  As reivindicações femininas à sociedade foi o princípio da inclusão das mulheres no espaço público do mercado de trabalho. Com a conquista desse novo espaço na sociedade, elas passaram a ser notadas pelos historiadores. Dispostas a exercer diferentes atividades, a mulher vai atuar também nas artes, no teatro e na música.

Ao longo dos anos, o balé se consagrou como uma dança superior em todo o Ocidente. E isso se deve ao fato de o balé ser uma dança derivada da  corte, ou seja, o resultado de uma manifestação aristocrática. Além disso, ela apresenta elementos que estão diretamente relacionados à noção de civilização, como rigidez corporal e disciplina. A coreografia, que sendo  executada a partir de músicas de concerto, as clássicas, é outro elemento que marca essa elitização do balé.  Portanto, observa-se, ao longo dos anos, uma supremacia do balé sobre as demais danças. Com a evolução dos modos e costumes, as  mulheres foram incluídas como bailarinas e passaram a se destacar nessa arte.

Conforme Michelle Perrot, escrever sobre a história das mulheres é um empreendimento relativamente novo e revelador de uma profunda transformação. Mostra que as mulheres têm uma história, ou seja, são agentes históricos, independente do problema grave da falta de fontes. Sendo assim, escrever sobre uma dessas mulheres implica levar a sério, o ofício do historiador. A recuperação da história de Lya Bastian Meyer, ancorada nas pesquisas, busca por imagens e pela oralidade, trazer à luz fatos novos e reveladores, não somente sobre a grande dama da dança clássica no estado, mas também sobre a história do balé.

Pioneirismo, seriedade e talento fizeram dessa gaúcha um ícone na arte de dançar. Descendente de imigrantes alemães, Lya soube, igualmente, empreender, ao criar, em Porto Alegre, a primeira escola de bailados, a qual se tornou referência no Estado. Pertencente a uma família burguesa da Zona sul da cidade, pode se aperfeiçoar no exterior, trazendo para o Brasil conhecimentos acerca do melhor balé do mundo. A técnica e a graça da dança russa, apreendida na Europa, foram apresentadas por Lya, inúmeras vezes, para um Theatro São Pedro lotado. Elogiados pelo público e pela crítica da época, os espetáculos de dança  tornaram-se  inesquecíveis. Devido ao pioneirismo de Lya Bastian Meyer, a dança clássica se propagou pelo Estado, criando raízes, as quais serviram para divulgar o nome da bailarina e de sua escola.  Ambas associadas ao talento, ao idealismo e à coragem empreendidos em prol da arte e da cultura no Estado.


[1]    SCHMITZ, Maria Helena Luce. Entrevista concedida à autora. Porto Alegre, 07 mar. 2011.

[2] MEYER. L. B. Teatro São Pedro. Jornal da época. Acervo da família.


[1] Lya Bastian Meyer e sua Escola de Bailado. Propagada em um jornal da época. Acervo da família.

[2] Convite em um jornal da época. Acervo da família.

[3] Jornal de Santa Maria. Acervo da família.

[4] MEYER. L. B. Visões do Bosque Encantado. Jornal da época. Acervo da família.

[5] MEYER. L. B. Visões do Bosque Encantado. Jornal da época. Acervo da família.


[1] Elogio da crítica alemã em Berlim/1928. Acervo da família.

[2] Eis como Lya Bastian Meyer define o caráter de “Sherazade”, a princesa oriental das Mil de Uma Noites, protagonista de seu último balé. Vitória da argúcia feminina sobre a força masculina. Reportagem de um jornal da época. Acervo da família.

[3] FOLHA DO POVO. Pelotas, 27 de agosto de 1941. Acervo da família.


[1]       A chácara onde Lya nasceu e morreu, foi edificada às margens do rio Guaíba no bairro Pedra Redonda em Porto Alegre. Em homenagem a sua esposa Clotilde, Oscar nomeou o bosque de Vila Clotilde, um refinado  bosque com ares de parque inglês.

 

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