Chácara da Vila Clotilde no Morro do Sabiá

Morro do Sabiá: história e requinte 

Moradores da Vila Clotilde em 1910

No finalzinho do século XIX, primórdios do bairro Ipanema, todo o Morro do Sabiá, vizinho da Pedra Redonda, pertencia ao Barão Von Seidel, um solteirão que construiu uma platibanda sobre a figueira mais alta do morro para ver as caravelas entrarem no Guaíba. Entre as embarcações observadas, estavam aquelas que traziam imigrantes, a maioria alemães, a Porto Alegre. Eram viajantes que, ao visitar a região, então Província de São Pedro, deixaram importantes testemunhos acerca da história da cidade.

O relógio indicava 5 horas na pálida luz crepuscular, o continente apresentava-se em forma de vistosos morros escuros à direita e à esquerda, na extremidade norte da Lagoa dos Patos. Por todos os lados, cercavam-nos morros de formas suaves, cobertos de florestas, uma ilha minúscula formada quase somente por uma enorme pedra de branco reluzente, à qual foi anexada uma construção semelhante a uma fortaleza, bem como uma colônia militar penal” (FRANCO, Os viajantes olham Porto Alegre).  A minúscula ilha de que fala o viajante é a das Pedras Brancas, situada entre o bairro Ipanema e a cidade de Guaíba. Uma forma de olhar a cidade de Porto Alegre do passado; e, nessa visão dos viajantes, recuperar cenários da longínqua e inóspita Zona Sul.

Tempos mais tarde, as terras que hoje compreendem o Morro do Sabiá foram adquiridas por Oscar Meyer, um rico  comerciante, proprietário de imóveis e lojas no centro da cidade. Relata a família que, antes das terras serem de Oscar, elas pertenciam a Otto Niemeyer, nome conhecido na Zona Sul. No final dos anos 1920, durante a administração de Alberto Bins (1928/1937), com as transformações de Porto Alegre, Meyer obrigou-se a vender seus prédios situados no centro. A abertura de novas ruas, de avenidas e  a construção do Viaduto Otávio Rocha exigiu a demolição de suas lojas que ficavam no meio do caminho (atual Avenida Borges de Medeiros). Apesar da reação contrária à demolição, liderada por intelectuais da época, os imóveis de Oscar foram posto a baixo. Com o dinheiro da indenização, ele pôde comprar  as terras em Ipanema. Nem sonhava ele que, um dia, o local se transformaria na “Vila Clotilde”, uma belíssima chácara, às margens do Guaíba, homenagem a três gerações de mulheres da família.

A chácara dos Meyer, antes apenas um extenso matagal, tornou-se modelo em Ipanema. Um lugar refinado e com ares de parque inglês. Foi Oscar o primeiro plantador de coníferas da região, arborizando um grande espaço e preservando a magnífica Mata Atlântica. Chamado de louco pelos amigos por ter se enfiado naquele fim de mundo que era Ipanema, ele plantou, juntamente com um grupo de jardineiros, toda a grama (relva inglesa) do parque. A chácara abrangia toda a montanha, desde a antiga Estrada da Pedra Redonda, hoje Avenida Coronel Marcos, até a beira da praia que, na época, apresentava águas límpidas, perfeitas para o banho. Uma vez que o desejo de Oscar era uma casa de veraneio para a família, o lugar era perfeito.

A Vila Clotilde encantou, como ainda encanta, os porto-alegrenses e visitantes de Ipanema. Porém, tempos mais tarde, diante de dificuldades para administrar tão extensa área, Lya Bastian Meyer, filha de Oscar, vendeu parte da propriedade a terceiros. Entre os compradores estavam: a Fundação Ruben Berta – associação dos funcionários da VARIG no início dos anos 1970; a Associação dos Antigos Alunos Maristas de Porto Alegre – AAAMPA (hoje Colégio Marista Ipanema) no final dos anos 1950, e o topo do morro passou a ser de uso exclusivo dos alunos e professores do Colégio Anchieta, aquisição feita em 1949.

O Centro da chácara, onde se avista a linda moradia – uma casa de cinema em estilo alemão,  ainda permanece com a família, descendentes de Oscar e Clotilde. Maria Helena é uma dessas descendentes e nos conta que: “Um fato curioso envolveu esta venda. Eu frequentava muito o Instituto Cultural Norte-Americano, cuja bibliotecária D.Haydée Leão Madureira era amiga da D.Lya. Pois bem, numa tarde, após uma revisão médica, eu passei por lá. D. Haydée, um tanto constrangida perguntou-me se era verdade que parte da chácara estava sendo vendida. Respondi-lhe que sim e que o “arras” seria assinado às 17h. Ela então arrematou se eu sabia quem seria o comprador. Afirmei que seria (dei o nome de uma instituição conhecida) e que eles construiriam ali um local para abrigar pessoas especiais. Só então ela revelou que a dita ‘Instituição’ estava servindo de ‘testa de ferro’ para um cemitério arborizado, com crematório, tipo o Jardim da Paz”.  Maria Helena, ao relatar esse sinistro fato, concluiu aliviada que, felizmente, houve tempo para desfazer o negócio e o encantador e histórico Morro do Sabiá continuou sendo dos vivos, para alegria dos moradores de Ipanema e das redondezas.

Permaneceu um lugar aprazível, onde a natureza ainda cumpre a função de celebrar a vida, respeitando o desejo daquele empreendedor que não só acreditou no sonho, mas também insistentemente trabalhou no intuito de concretizá-lo.

Referências:  MACHADO, Janete da Rocha. IPANEMA: História e Memórias de um Bairro da Zona Sul de Porto Alegre. Trabalho de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em História do Rio Grande do Sul. FAPA – Faculdade Porto-Alegrense. Porto Alegre, 2011. FRANCO, Sérgio da Costa. Os viajantes olham Porto Alegre. Santa Maria: Anaterra, 2004. SCHMITZ, Maria Helena Luce. Entrevista concedida à autora. Porto Alegre, ago. 2011

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