Entrevista com Fernando Affonso Gay da Fonseca

Fernando Gay da Fonseca autografando um de seus livros

Fernando Gay da Fonseca autografando um de seus livros

Em dezembro de 2010, tive o prazer e o privilégio de conhecer Fernando Gay da Fonseca, homem público e comprometido com a educação e a cultura. Gay da Fonseca foi político, jurista e professor da PUCRS. Também esteve na Secretaria de Justiça do Estado e como governador do Rio Grande do Sul (interino) exerceu as atividades na década de 1960.  Ocupou o Senado Federal e integrou a Delegação do Brasil na Assembleia das Nações Unidas, percorrendo vários países.  Foi representante na ONU e na UNESCO  em diversos momentos de sua carreira política, um tempo muito rico, como ele mesmo diz. Dono de uma incontestável cultura, geral e jurídica, Fonseca declara nesta entrevista, um grande amor pelo bairro Ipanema, lugar em que viveu quase toda sua vida. A seguir a entrevista concedida por ele, na sua casa em Ipanema, onde vive com a filha e os netos. 

Janete  – A criação de uma escola pública foi um dos projetos incluídos no plano de urbanização de Ipanema nos anos 30. Como se deu esse processo? Quem sugeriu que a homenageada fosse a Dona Odila, a sua mãe?

Fernando Gay da Fonseca – A escola foi uma surpresa. Quando eu estava na fazenda em Camaquã, recebi o Diário Oficial. Até então, eu não sabia. Mas o que se sabe é o que Juca Batista reservou uma área para a escola pública. Porque todo o loteamento tinha de ter uma área para uma obra pública, ou praça, ou coisa que o valha. A minha mãe contava que ela tinha estimulado o velho Juca para em vez de ele fazer uma praça, reservar a área para uma escola. Quando deram o nome da minha mãe, para mim, foi uma surpresa. Foi uma homenagem justa que o governo prestou a ela.

Janete  – Esta homenagem justa, como o senhor diz, foi em função das obras sociais dela pelo bairro?

Fonseca – Das obras sociais que ela fazia aqui e fora. E outra coisa: ela promovia, todos os anos, o Natal da Criança Pobre. Havia quantidade de famílias de poucos recursos. Então, minha mãe fazia essas coisas quando nós vínhamos veranear aqui. Ela tinha uma charrete e um cavalo chamado Camaquã. Veraneávamos em casa alugada. Depois é que ela comprou e me deu de presente um chalé. Ela colocava o cavalo na charrete e ia visitar a gente pobre. No período de verão, ela se distraía, passeando e socorrendo os que tinham necessidade. Lembro que aqui ao lado tinha um rapaz com pneumonia. Ela foi buscar o doutor Oscar Pereira, que tinha casa aqui, para examinar o rapaz e fazer o tratamento. Ele era especialista em pulmão. Salvou-o. Depois, lembro dele, era um homem forte e sadio.

Janete – O chalé que o senhor ganhou da sua mãe era aqui?

Fonseca – Era. Demoli o chalé e fiz essa casa. Resolvemos fazer uma casa maior para a família. Quando eu vim morar aqui ainda era balneário, mas já estava com cara de bairro. Quando eu vim veranear pela primeira vez tinha 17 anos.

Janete  – 1940?

Fonseca – Ah, não me pergunte datas, não lembro. Setenta anos atrás, nós vínhamos só veranear. Passei a morar aqui depois de construir essa casa. É engraçado porque eu terminei a casa e fui para o Conselho Federal de Educação. Passei 12 anos lá, em Brasília, e a minha filha é que ficou por aqui cuidando. Morei em Brasília em três momentos. Estive na ONU duas vezes e morei nos Estados Unidos onde fiz meu curso de pós-graduação. Depois, fui para Unesco por cinco vezes. Morei também em Paris e Genebra. Uma vida muito agitada, mas muito rica. Quando eu renunciei ao Conselho (de Educação), nós tínhamos decidido que iríamos aproveitar essa casa, aproveitar Ipanema. Tínhamos paixão por Ipanema. Meus pais também. Meu pai era da Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Ele era engenheiro e viajava muito. No verão, quando ele chegava, vinha para Ipanema. Fosse dia, fosse noite, ele ia para dentro do Guaíba e chamava os amigos para irem ao banho com ele. A família toda. Mesmo à noite, ele levava todo mundo. Inclusive quando nós só veraneávamos aqui. Uma vez, ele mandou fazer um tablado no meio das águas para um baile. Foi um baile de gala bem em frente à casa dos Coufal _ da Déa e do Oswaldo _ ali na Avenida Flamengo. Foi um dos bailes mais bonitos que se viu naquela época.

Janete  – Pena que não há fotos…

Fonseca – É, não tenho nada, nada. Era um baile de gala ainda por cima. Havia uma ponte, um pontilhão que ia lá no fundo.

Janete  – Tipo um trapiche?

Fonseca – Isso, um trapiche. E havia dois tablados, um para os serviços e outro para a orquestra.

Janete  – E sobre o trenzinho que chegava ali na Pedra Redonda? Lá também havia um tablado e um trapiche em frente ao hotel.

Fonseca – O trenzinho descia por baixo da ponte. Tanto que o Loureiro da Silva tinha um projeto de uma avenida que substituísse os trilhos do trem. Ele queria muito alargar isso tudo aqui. Tinha encantos também por Ipanema. Loureiro veraneou aqui por dois ou três anos. Ele adorava sentar aqui. Vinha me ver todos os dias quando eu estava veraneando. Sentávamos no avarandado do chalé para conversar.

Janete  – Chalés que eram as casas de veraneio…

Fonseca – Eram casas de madeira, próprias de verão. Mais simples.

Janete  – E como surgiu o bairro Ipanema?

Fonseca – A formação do bairro, o loteamento, foi na década de 1930 pelo Oswaldo Coufal, mas a configuração oficial, dos registros públicos, foi em 1959 pela prefeitura. Porque na nossa escritura dos terrenos ainda é pelos balneários. Aqui são vários balneários. Até a Ponte (Arroio Capivara) é Balneário Ipanema (que é o do Oswaldo Coufal). Da Ponte até a próxima esquina (Avenida Oswaldo Cruz) é Balneário Guaíba. Em seguida é Balneário Juca Batista. Depois vem Balneário Palermo e Balneário Caiçara. Não sei se tem outro mais, até chegar ao Espírito Santo e Guarujá. Todos pequenos, mas com profundidade.

Janete  – Quem determinou esses nomes? A prefeitura?

Fonseca – Não. Foi o loteador. E uma coisa interessante do loteador, no caso o Oswaldo Coufal, são os nomes que lembram os lugares do Rio de Janeiro. Não perdendo a continuidade dos bairros do Rio: Laranjeiras, Leme, Flamengo e Gávea.. O balneário do Coufal, o Ipanema, era dele em sociedade com os familiares da Déa, os Agrifoglios. A Déa, o Oswaldo Coufal e os meus pais são da mesma geração. Teriam hoje mais de 100 anos. E aqui na esquina era o chalé de veraneio do professor Darcy Azambuja, uma grande figura das letras jurídicas e da literatura rio-grandense. Foi secretário de Estado no governo do Flores. A região era muito bonita. A gente vinha para cá após o Natal. Morávamos no Centro. Depois começou o hábito de vir no Natal e se ficar até o início do ano escolar. Nesse meio tempo, muitos tiravam 10, 15 dias e iam ao mar. Torres, Tramandaí e Cidreira eram as praias tradicionais de mar, as quais a gente frequentava. Depois é que surgiu Capão da Canoa.

Janete  – Mas a praia de rio era melhor…

Fonseca – Ah, sim. Até porque a gente podia usufruir da praia de rio por um tempo muito maior. E a água era limpa. Pelo menos a gente nem perguntava. Nos criamos aí No Guaíba, e eu criei os meus filhos tomando banho nele. Vínhamos também frequentemente no inverno, até porque a casa estava sempre pronta, sempre arrumada para gente podermos usufruir. Tínhamos paixão por Ipanema. Como eu ainda tenho.

Anúncios