Vovô na Praça da Alfândega

A Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre, rodeada de prédios neoclássicos era o lugar aprazível, onde os namorados encontravam-se para conversar e passear. Era, ali, também, que se tiravam “retratos”, no intuito de ofertar à namorada, ou, quem sabe, deixar à posteridade, uma lembrança. 

O fotógrafo “lambe-lambe” costumava instalar-se nas praças e jardins públicos do Brasil nos idos do início do século XX e durante mais de três décadas retratou as mais variadas situações e os mais variados tipos humanos.

Meu avô, em torno dos anos trinta, então com seus vinte e poucos anos, tinha por hábito circular por aquela área. A praça, hoje, um dos mais conhecidos cartões postais da cidade, era de um verde intenso, com suas alamedas marcadas por pedras de um tom rosa muito antigo. Era a época em que a cidade iniciava sua modernização urbanística e de engenharia, com as novas estruturas arquitetônicas, mais modernas e arrojadas. Era a administração Loureiro da Silva.

Na política, vivia-se um período de indefinições e incertezas.  Era o fim da República Velha (1889-1930) e o início de um novo período na história política brasileira. Com Getúlio à frente do Governo, iniciava-se a Era Vargas e o Estado Novo, porém, para o meu avô, este era um período de muito cepticismo. Taciturno, vovô, em seu terno Oxford (calças com bocas mais amplas), chapéu Panamá (que apesar do nome era fabricado no Equador) e gravata, lembrava galãs da época, como Humphrey Bogart e Clark Gable.

Mas, apesar da elegância, vovô transparecia um ar de desconfiança e preocupação, talvez estivesse com expectativas quanto ao namoro que iniciava com a minha avó, Georgina, ou tomado pelas incertezas que se anunciavam com o novo período. Assim, era preciso deixar uma marca, uma presença, e nada mais apropriado do que um retrato tirado no Lambe-Lambe da Praça da Alfândega.

Procurados, quase sempre, com a intenção de perpetuar momentos especiais, os Lambe-Lambes trabalhavam nas praças e parques de Porto Alegre, fotografando, normalmente, casais apaixonados ou famílias em momento de descontração. Dizem que a origem do nome “lambe-lambe” vem do ato do fotógrafo lamber a chapa de ferro que era coberta por uma camada de asfalto, fazendo com que a imagem se destacasse do fundo preto pela ação do sal presente na saliva.

Oitenta anos já se passaram desde então, a paisagem local alterou-se inúmeras vezes, mas o retrato amarelado pelo tempo e o legado ficaram para atestar um outro estilo de vida: na moda, nos hábitos, na cultura, enfim, possibilitando, assim, o resgate, embora ínfimo, de outra geração.

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