Beth (de laço no cabelo) e amiguinhas (eu de chapéu)

De parto normal e assistida por D. Maria parteira, nasceu Beth. 

Beth veio ao mundo cercada pelo trânsito e banhada pelo rio Guaíba no Bairro Cristal, Zona Sul de Porto Alegre. Cresceu dando pontas nas pedras e resvalando seus pés no limo encrespado pelo sol abrasador de janeiro.

Beth é dessas pessoas maravilhosas e pitorescas que vão se tornando escassas nos tempos corridos de hoje. Uma espécime rara nos turbulentos vai-e-vem das andanças do tempo. É gente. Cheia de tristezas e alegrias, preocupações e desleixos. Otimista, pessimista, com dúvidas e certezas. Humana!

Lavou fraldas do Rogério e criou a Márcia entre fugas de barco e chineladas por teimosia. Ah, Beth no patamar trançado dos sarrafos e balanço para o vazio da escada que a levava ao seu mundo mágico da areia, do salseiro e do porão. Porão das casas de bonecas, das brigas com as amiguinhas de infância, das alfafas, das teias de aranhas.  Beth, das amiguinhas crioulas da escola, dos medos do treme-treme, da Mariazinha e do recatado colégio de irmãs.

Aos treze anos já era uma moça feita com os traços bem delineados. Já estava formada para a vida, para os sonhos, para as primeiras desilusões de amor.

Lembro-me bem: homenageou seu gato com nome de um grande atleta de futebol da época. O devaneio durou pouco. Outro atleta. O definitivo, o titular para todo o sempre do seu coração.

Hoje, Beth está casada, é mãe e avó. Esforça-se para transmitir às filhas e aos netos, toda a sua herança maravilhosa da arte de ser feliz. E segue seu caminho. Segue Beth temperando os sentimentos, equilibrando os momentos bons com os maus. Alternando as suas idas e vindas. Contrabalançando as certezas e dúvidas. Vai Beth, crente e descrente. Derrotada e vitoriosa. Alegre e triste. Esposa, mãe e avó. Recordação do passado, presente, otimista do futuro!

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