Correio do Povo/1958

Foi no tempo em que os cinemas ainda tinham os programas de tela e palco com shows ao vivo e cortinas de veludo que se tem notícia das primeiras salas de exibição nos bairros de Porto Alegre. Susana Gastal, autora de “Salas de Cinema: Cenários Porto-Alegrenses” chama de Cinelândia, a descentralização dos cinemas ocorrida nas décadas de 40 e 50 do século passado. Na Zona Sul de Porto Alegre, três tiveram suas estreias nos anos 50. Duas salas de exibição foram criadas no bairro Belém Novo (Cine Art e Belgrano), e uma no bairro Ipanema (Cine Ipanema).

De propriedade dos senhores Lívio Onori Di Rocco (que possuía a maior parte na sociedade), Antônio Carlos Porto Alegre, advogado, e de Joseph Porto Alegre, fotógrafo, o Cine Ipanema foi inaugurado em 28 de novembro de 1958, uma sexta-feira. O cinema, logo no primeiro ano, foi um sucesso. Os frequentadores, utilizando bondes ou carros, se deslocavam de outros bairros, atraídos pela moderna aparelhagem.

Conforme anúncio de um jornal da época: “Mais um cinema deverá ser inaugurado, amanhã, dia 28, nesta capital. Trata-se do Cine Ipanema, localizado na Avenida Flamengo, nº 381, no Balneário Ipanema, pertencente à Cinematográfica Ipanema Ltda. De construção moderna, a nova casa de espetáculos deverá desempenhar importante papel na vida social do populoso bairro do 6º Distrito. Dotado de moderna aparelhagem, contará o Cine Ipanema com todos os últimos sistemas de projeção. Na sessão inaugural, com seu início marcado para às 20 horas, será exibido o belíssimo filme musical Serenata no México, Mexiscope da Pelmez, em Eastmancolor”.

Um fato interessante e curioso sobre este cinema refere-se à forma de anunciar o filme, a qual ocorria pelo toque de uma sirene. Eram três toques chamando os moradores do bairro. Ao soar o terceiro toque, significava que o filme já estava começando e era preciso se apressar para não perder as primeiras cenas.

Além do chamado para a exibição, o Cine também possuía um divulgador motorizado que circulava pelo bairro. Ele saía às ruas de Ipanema em uma camioneta, com um microfone, informando qual era o filme programado para aquela noite ou tarde. Todos conheciam e apreciavam a iniciativa. Alguns moradores batiam palmas, tal era o entusiasmo por aquela moderna alternativa de entretenimento.

O Cine Ipanema, seguindo a linha dos demais cinemas da cidade, também possuía uma bomboniere. O setor de guloseimas era administrado pela senhora Yara Di Rocco, esposa do senhor Lívio. Quando a crise chegou aos cinemas de bairro, o valor dos ingressos baixou, dificultando aos proprietários desses estabelecimentos, e foi nesse período que a bomboniere da Dona Yara rendia mais do que os ingressos vendidos, mesmo quando se faziam promoções. Conforme Gastal, “as sucessivas revoluções tecnológicas da Sétima Arte, a introdução do som e da cor, por exemplo, ao longo do século 20, foram motivos para que empresários sucumbissem”. Da mesma forma, o surgimento da televisão afetará o lucro dos empresários da área. Assim, muitos donos de cinemas quebraram, pondo fim às salas afastadas do Centro.

Construído para abrigar o Cine Ipanema, o prédio ainda existe, porém, deteriorado pelo tempo e pela falta de cuidados. Paredes, portas e janelas danificadas e pichadas traduzem o abandono em que se encontra. Ainda assim, permanece como testemunha da história de um tempo que vai bem longe.  Quem passa em frente ao local, não imagina que ali já foi cenário não só de glamour com as exibições noturnas, como também de diversão juvenil com as matinés das tardes de domingo.

http://wp.clicrbs.com.br/zhzonasul/2010/06/08/um-cinema-historico-em-ipanema/

 

Anúncios