Primeiros tempos da chácara dos Dreher
Fonte: Acervo da família Dreher

No início do século passado, as terras onde hoje se encontra o Bairro Jardim Isabel, Zona Sul de Porto Alegre, pertenciam a Bernardo Dreher e sua família. O local abrigava, além da exuberante Mata Atlântica, uma próspera chácara, responsável pelo abastecimento de produtos hortigranjeiros à população local.

A história desse colonizador remonta ao século XIX, quando seu avô, Johann Karl Dreher, imigrante alemão recém-chegado da Europa, dá início a uma série de empreendimentos de sucesso no Rio Grande do Sul. Entre esses negócios, estava o da exploração de pedras semipreciosas, cuja técnica foi trazida da cidade de Idar na Alemanha. A região localizada no distrito de Birkenfeld, estado da Renânia, era um centro de lapidação de pedras, e o nome Dreher, que significa torneiro, provavelmente, deriva da profissão.

A família Dreher, pioneira também no ramo de importação e exportação de produtos alimentícios, foi igualmente precursora na navegação fluvial, cujas embarcações faziam, regularmente, as linhas Porto Alegre-Palmares e Porto Alegre-Tapes.  Ficaram conhecidos os vapores Montenegro, Camaquã, Gustavo e Palmares, todos pertencentes à “Navegação Dreher & Cia”. Os Dreher possuíam ainda um grande armazém de Secos & Molhados no centro de Porto Alegre. O estabelecimento tinha trapiche próprio na beira do Guaíba para atracamento dos navios e das mercadorias. No armazém, eram guardados e comercializados grandes estoques de produtos estrangeiros como vinhos, sardinhas, bacalhau, azeite de oliva e azeitonas, originários de Portugal, país com que mantinham boas relações comerciais. Assim, o empreendedorismo do primeiro Dreher perpetuou-se nas gerações seguintes através de Edmundo e de seu filho Bernardo.

Empregados da chácara/1930

Bernardo Dreher nasceu a 6 de abril de 1887 em São Leopoldo e faleceu em Porto Alegre em 11 de janeiro de 1952. Concluiu seus estudos no Colégio Nossa Senhora da Conceição, escola dos Padres Jesuítas de São Leopoldo. Recém-formado, empregou-se na firma do pai “Edmundo Dreher & Cia Importadores e Exportadores”.  Em 1914, casou-se com a jovem Martha Elisabeth Bercht, filha de Jorge Bercht, membro do grupo de comerciantes conceituados da capital que, na época, possuía uma chácara de veraneio à beira do Guaíba, na Tristeza. Talvez tenha sido este o motivo que levou Bernardo a comprar uma grande quantidade de terras na Zona Sul, onde é hoje o Bairro Jardim Isabel.

Conforme carta deixada por Martha em 1970: “Como aconteceu com muitos Porto-Alegrenses que não resistiram aos atrativos da hoje denominada Zona Sul, adquirindo pequenos sítios ou chácaras nos arredores da Tristeza e Pedra Redonda, também nós, meu marido e eu, acabamos comprando uma área de terras de regular tamanho, situada defronte à Chácara Meyer, pertencente aos descendentes da Família de Oscar Bastian Meyer. Nesta chácara existe uma colina revestida de espesso mato, refúgio de muitos pássaros, onde se ergue a Casa da Juventude e donde se descortina bonita vista sobre o Guaíba. O lugar é conhecido por “Morro do Sabiá”, designação que deu nome à região”.  Durante muitos anos, a chácara dos Meyer foi a única vizinhança de Bernardo e Martha Dreher naquela longínqua e inóspita região de Porto Alegre.

Em princípios de 1920, Bernardo Dreher adquiriu cerca de 40 hectares de terras em uma região conhecida como Pedra Redonda, Zona Sul de Porto Alegre. Conforme relata Martha, falecida em 1977: “A área de terras por nós adquirida no longínquo ano de 1923, pela quantia de cinquenta contos de réis, pertencia ao capitalista Otto Niemeyer que também morava na Tristeza, era amigo da zona, onde possuía muitas propriedades. Naquela época, ainda não existiam os balneários de Ipanema, Espírito Santo e Guarujá, cujas terras eram propriedade particular e suas praias inacessíveis ao público”.

Dona Martha Dreher e filhos na chácara em 1930

As terras compradas por Bernardo faziam limites com a Chácara de Oscar e Clotilde Bastian Meyer no Morro do Sabiá e com a fazenda de João Batista de Magalhães, o Juca Batista, atual bairro Ipanema. Eram aquelas, terras fronteiriças ao Morro do Osso e pertencentes a Otto Niemayer. Conforme Martha:: “Em 1923, a região era escassamente povoada, só existindo uma casa comercial, a venda do Juca Batista, na curva da Estrada da Cavalhada, e, na vizinhança da nossa chácara, alguns casebres modestos pertencentes a gente humilde”, Naqueles tempos, não havia ainda a Coronel Marcos, avenida que, atualmente, liga o centro da cidade com os bairros mais distantes da Zona Sul. Os caminhos eram de chão batido, o que dificultava o deslocamento. Assim, o transporte pelo Guaíba foi bastante utilizado.

Após a compra das terras, Bernardo construiu a moradia da família – um lindo palacete, mais conhecido por “Castelinho”, e que ainda está no mesmo local onde foi edificado em 1923. Para a obra foram trazidos ladrilhos, vitrais e azulejos de terras distantes. O casarão adquiriu fama, anos mais tarde, pelos encontros de negócios que ali ocorriam. Martha relembra esses momentos: “Como meu marido, através de seus negócios, era muito bem relacionado, nossa chácara vivia cheia de gente. Entre os visitantes ilustres lembro o Dr. Getúlio Vargas e Da. Darcy, o Dr. João Neves da Fontoura, Daniel Krieger, Osvaldo Vergara, entre outros”.

A moradia da família em 1923

Contavam os antigos moradores do lugar que, nas terras pertencentes à Bernardo Dreher e família, hoje o Bairro Jardim Isabel,  ocorriam fenômenos sobrenaturais. Na divisa leste da chácara, à beira da Estrada Conselheiro Xavier da Costa, fronteira com o Bairro Ipanema, existia (e ainda existe) uma centenária figueira, local de lendas e superstições. Entre as histórias contadas pelos mais velhos, figuram as de assombrações e de tesouros, como as descritas em carta por Dona Martha Elisabeth Dreher, esposa de Bernardo, mais conhecida por Dona Isabel: “Diziam os moradores da zona que às vezes apareciam luzes debaixo da árvore e, por acreditarem que o lugar era assombrado, ninguém se atrevia a passar ali à noite. Também corria o boato de que um tesouro enterrado havia ali e, de fato, notavam-se sinais de escavação próximo das raízes da figueira”. Isso atraiu os moradores da região que vinham em busca dos tais tesouros.

Com o passar do tempo, os espaços da chácara foram sendo tomados pelos estábulos, chiqueiros, galinheiros, hortas, orquidários, pomares e pelos bonitos jardins da dona Isabel, como era conhecida na região, a esposa do seu Bernardo. “Tínhamos criação de ovelhas, porcos, coelhos, aves. No pátio, ao redor da casa havia araras, macacos, tamanduás – um verdadeiro jardim zoológico. Certa vez, depois da enchente de 1941, até um jacaré apareceu no açude. Nos matos da chácara, viviam muitos animais selvagens, como guaraxains, tatus, porco-espinho, ratões do banhado, preás, além de cobras e lagartos. Nos campos, havia bandos de quero-queros e até perdizes apareciam de vez em quando”, conclui Martha.

Além das atividades da chácara, Bernardo Dreher envolveu-se com outros negócios. É dele a primeira usina de açúcar do estado, a Usina Santa Martha Ltda. O empreendimento, localizado no Município de Osório, foi inaugurado em 1929 por Getúlio Vargas, na época presidente do Estado. Alguns anos depois, visando à ampliação dos negócios, reatou as relações comerciais com a firma de navegação de seu pai “Navegação Dreher”, pois era preciso agilizar o escoamento da produção de açúcar, ou seja, transportar a mercadoria entre Porto Alegre e a região do litoral norte. Bernardo também era dono de um importante engenho de arroz em Tapes, cuja capacidade de produção era de 500 sacos diários.

Em 1940, Bernardo Dreher abandonou essas atividades para dedicar-se, juntamente com sua esposa, às lidas da chácara. Cultivava e comercializava uma infinidade de produtos extraídos de sua horta e pomar. “Em matéria de verduras e frutas, as hortas e pomares organizados por meu marido primavam pela qualidade de seus produtos. Tinham praticamente de tudo e, especialmente, as frutas – maçãs, pêssegos, ameixas, marmelos, mangas, caquis, etc. Eram famosos pelo tamanho e qualidade, tanto que na época de colheita sempre aparecia muita gente de Porto Alegre para comprá-las. O que não era vendido eu aproveitava para fazer geleias, marmeladas, goiabadas e sucos”, informa Martha. O restante dos produtos oriundos da chácara, Bernardo transportava até o Mercado Público e comercializava no Centro da cidade.

A lida na chácara em 1940

A chácara da família Dreher se configurou durante muitos anos em um grande arranchamento. Eram terras as quais costeavam o Morro do Osso, local de fauna e flora ricas e diversificadas. Daí, a existência de muitos animais e plantas na chácara dos Dreher.  A beleza do Morro do Osso perpetuou-se até nossos dias, porém a chácara de Bernardo e Martha não teve igual destino – foi vendida e, imediatamente loteada na década de 1950. No auge do veraneio da Pedra Redonda e com o advento da Estrada de Ferro do Riacho, cresce a procura por terrenos na região. É desta época a construção das primeiras vivendas de veraneio – as imponentes e admiradas mansões com praia particular. Surgem, também, os bairros Ipanema, Espírito Santo, Guarujá e, com eles, proliferam os loteamentos, resultado da divisão das terras de antigos chacareiros, como Bernardo Dreher.

A família Dreher em momento de lazer à beira do Guaíba

Na década de 1950, a região dos Jardins da Dona Isabel não escapou do crescimento e da urbanização imposta à zona sul da cidade. A chácara, outrora símbolo de opulência, transformou-se no loteamento “Jardim Vila Isabel”.  “Por não se enquadrar na zona da produção hortigranjeira, nossa chácara, devido à valorização das terras e elevação dos tributos, teve de ser urbanizada, constituindo o loteamento Jardim Vila Isabel, onde os antigos campos, matos, hortas e pomares cederam lugar a bonitas vilas e aprazíveis jardins. Esta mudança, de certo modo, me causa tristeza, mas, ao mesmo tempo, fico contente quando me conscientizo de que muitos ex-moradores de apartamentos, encontraram ali a paisagem, o espaço, o ar puro, o sol e a tranquilidade que todos nós hoje tanto almejamos”, finaliza dona Martha Elisabeth Dreher.

Pelo projeto de lei nº 10724 de 9 de julho de 2009 o loteamento Jardim Vila Isabel se transformou no Bairro Jardim Isabel. Resultado do empenho dos moradores e da Associação Comunitária Jardim Isabel e Ipanema (ASCOMJIP) criou-se o bairro, cujo nome foi escolhido como uma forma de homenagear aquela que foi a primeira colonizadora dessas terras: Martha Elisabeth ou simplesmente Dona Isabel.

 

Agradecimentos:

À família de Bernardo Dreher – Lídia, Maria Cristina e Joana Dreher, que, gentilmente disponibilizaram seu acervo particular, possibilitando o resgate de mais um capítulo da história de Porto Alegre. Sem essa valiosa contribuição não seria possível recuperar os contornos de um tempo passado na Zona Sul da cidade.

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