A Velha Casa do Cristal/ Ilustração
Fonte: acervo particular

A velha casa tem sono. Dorme e sonha. Em cada peça (que foi quarto improvisado) descobre uma lembrança. Em cada canto, cada espaço, reconstitui uma recordação. Em cada móvel revive-se um instante que vai bem longe. Na sombra da amoreira, onde não há ninguém para receber o refrescar do entardecer, voltam os chimarrões, misturam-se as conversas, os conselhos dos mais velhos, dos troncos Freitas, muito antigos, antigamente. O portão improvisado e escancarado deixa passar no impossível retorno, quem já se foi. Acende, imaginando, as luzes já sem sentido. Não há porquê. No ipê, do fundo do quintal, na sempre-viva entrelaçada na cerca, tão secos e sem vida, voltam as flores amarelas e vermelhas do faz-de-conta. Na ponta da mesa, o homem de camisa branca e pijama adormece. O descanso merece assim o  seu lugar.

Onde andam os piás? O que foi feito das nossas crianças?  Ah, a saudade vem com força, feito minuano quando bate nas paredes caiadas, na talha sem tampa, no assoalho da varanda, nas roupas estendidas nos varais, na porta do galinheiro, no pão do mato da vó Jorja assado no fogão de lenha, na vizinhança reclamando das diabruras dos guris. Vem do café da Draga varando a madrugada, das frutas das Docas, do arroz com couve ao meio-dia. Vem das aulas gazeadas para fugir na canoa e trazer pintado. Das maçãs misteriosas ofertadas a professora.

Mudou o tempo, morreu a rua, nossa casa nem notou. A chuva fez barulho no telhado, escorreu rio adentro. Acordou a morada e descobriu que chorava. O homem de branco, na ponta da mesa acordou. Olhou o rio. Tentou dormir de novo. Os fantasmas de ontem faziam tão bem, pensou ele.

Em outros lugares, novas casas estavam sendo erguidas. Quem sabe, outros homens de cabelos acinzentados e barbas brancas sentavam-se às cabeceiras de outras mesas. Outros ipês e outras sempre-vivas eram plantadas? A velha casa, alegre e ensolarada, perdeu-se no tempo, virou lembranças… O homem solitário ficou no passado, percorrendo moradas imaginárias, morreu no amanhecer, não viu o pôr-do-sol. E nós compreendemos, assim como ele, um dia as casas morrem seus ocupantes também. Tudo vira lembranças. De um momento para outro acabamos solitários. Descobrimos a solidão.

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