Histórias de vida

Os 90 anos de Helga Bins Luce

Veranista da Pedra Redonda no início do século passado

Helga e o marido na Praia da Pedra Redonda/1940

Helga e o marido na Praia da Pedra Redonda/1940
Fonte: Acervo da família Luce

No condomínio familiar da Vila Nina, situado na Pedra Redonda, Zona Sul de Porto Alegre, existem ainda alguns chalés muito antigos que remetem a um tempo áureo de veraneio à beira rio. A moradia mais antiga da propriedade, erguida no final do século XIX, pertenceu ao casal Augusta e Frederico Linck, os primeiros veranistas do local. Contam seus descendentes que as terras foram adquiridas por Frederico, atendendo a um pedido de sua noiva, a Srta Augusta. Desejosa de um lugar à beira rio, não só para o descanso, mas também para estar próxima às suas amigas, Augusta teria recusado, na ocasião, uma joia valiosa, pois preferiu terras na Pedra Redonda.  No passado, chácaras e vivenda, como as da família Linck, serviram para o lazer e o descanso às margens do Guaíba. Algumas histórias dessas antigas propriedades e de seus moradores ilustres foram contadas pela Sra. Helga Bins Luce, 90 anos completados em 08 de março, a qual também veraneava no local. Casada com um dos netos de Frederico LInck  e sobrinha do Intendente de Porto Alegre Alberto Bins, ela relembra, nesta entrevista, momentos alegres de verões passados na Zona Sul.  

Janete: Dona Helga, a senhora é professora?

Helga: Sim, sou professora de inglês, de matemática e de alemão. Eu preparava os candidatos para o exame de admissão. Naquele tempo, para se entrar no ginásio era preciso fazer o exame de admissão. Eu preparava os candidatos e todos passavam. Eu também era secretária bilíngue. Em 1942 fui convidada para ser secretária do consulado alemão. Bem, aí fizeram uma reunião lá em casa, toda a família –  meus tios e meu pai, para decidir se eu poderia trabalhar. E a decisão foi que eu não podia ser secretaria do consulado alemão por causa do Hittler, da guerra e porque o papel da mulher era casar e ter filhos. Naquela época todos fomos proibidos de falar alemão.

Janete: A senhora nunca se arrependeu de não ter seguido os estudos e ter uma carreira profissional promissora?

Helga: Não, nunca me arrependi. Fiquei 65 anos casada e tive 7 filhos. Meu marido faleceu no ano passado. Fui muito feliz!

Janete: Sobre o verão na Pedra Redonda, a senhora lembra quando começou a usar a praia para veraneio?

Helga na Pedra Redonda 1

Helga em passeio na praia.
Ao fundo as pedras da Pedra Redonda
Fonte: Acervo da família Luce

Helga: Lembro sim, eu era adolescente. A primeira vez que viemos foi em 1941, nós ficamos na casa dos Ely. Nós éramos em 40 pessoas. Os homens dormiam na garagem dos barcos. Vieram também a minha vó, a minha prima, o meu tio que era viúvo, o meu pai e a minha mãe com os filhos. Eu conheci meu marido José Fernando (filho da Nina) aqui, quer dizer, comecei o namoro aqui na Pedra Redonda.

Janete: Ah, então é verdade que a senhora conheceu o seu marido na praia da Pedra Redonda?

Helga: Não, na realidade eu o conheci nos bailes da União Social São José. Mas o início do namoro foi aqui na Pedra Redonda. Houve um baile (de gala) na propriedade da família dos Barata e lá nós dançamos juntos primeira vez. A propriedade dos Barata era uma linda casa de veraneio também. E no dia seguinte ele me pediu em namoro na pedra aqui na frente.

Janete: E sobre o chalé, conta pra gente.

Frederico Linck e Augusta e filhos

Frederico Linck e Augusta e filhos
Fonte: Acervo da família Luce

Helga: O chalé foi construído em 1927 pelo marido da Nina e dado de presente para ela veranear com os 10 filhos. Já a casa grande foi feita pelos Linck (Augusta e Frederico, pais da Nina) no final do século XIX. Tanto que a rua se chama Augusta Linck em homenagem a ela. Acontece que muitas famílias de Porto Alegre vinham fazer o seu veraneio aqui, na Tristeza, na Pedra Redonda e Ipanema. Muitas famílias faziam isso: a mulher e os filhos ficavam toda a semana e o marido trabalhava na cidade e vinha para cá num trenzinho que tinha aqui. Tu conheces a história do trenzinho?

Janete: conheço sim. Ele fazia a viagem do centro até a Zona Sul. Era um trenzinho municipal.

Helga: Isso, ele saía do mercado e vinha até aqui em cima. Muitas famílias faziam a viagem de trem. Por exemplo, os Bier, que moravam na av. Independência e veraneavam aqui. Os Ely que moravam na André Poente e também veraneavam aqui.  As pessoas não iam muito para as praias de mar. Era muito longe e não havia estradas. Aqui se podia tomar banho de rio. Todo mundo usava o rio para banhos. Eu morei algum tempo aqui e meu marido chegava do trabalho e tomava banho à noite. A água que vinha para dentro de casa era do rio. Era água boa, potável. Então a gente levava sabonete e toalha e se banhava na praia. Para uso da cozinha, havia um poço no pátio. Tu sabias que tinha um trapiche? Os vapores vinham até ele.  E aqui ao lado, nossos vizinhos eram os Pabst.  A família dos Pabst era ali onde hoje é a Sociedade de Engenharia – SERGS. Havia um lindo chalé de veraneio na propriedade dos Pabst.

Janete: A sua família é de origem alemã?

Helga: Sim. A minha avó era casada com o Luis Englert e se chamava Malvina. Ela tinha uma irmã que se chamava Zulmira que se casou com um Bier. Eles fizeram uma casa aqui na Pedra Redonda para veraneio também. O Hugo Gerdau casou com uma irmã do meu pai, a Otília. Eles tiveram duas filhas, uma delas era a Helda Gerdau que se casou com um Joahnpeter. Eles tiveram 4 filhos, um deles é o Jorge Gerdau Joannpeter. São todos parentes meu porque a Helda era prima irmã minha.

Janete: E sobre os banhos de rio, a senhora usava maiô ou não gostava muito de banhos na praia?

Helga: Claro que gostava e muito. Eu usava os maios da ação católica com saiote e tudo e a minha avó que veraneou conosco, a,Malvina Englert, ficava na praia com a bengala e chamava a gente quando  nós íamos muito longe. Minha avó não entrava na água. Toda a família veraneava aqui no condomínio. Vinham em dezembro, antes do natal, e voltavam somente em março ou abril. À noite, os adultos se reuniam para conversar. As crianças dormiam cedo. A gente tinha horário para tomar banho no rio. A água que se tinha em casa não era encanada. Era do rio direto. Tinha um poço e um chacareiro que bombeava água para todas as residências. E a gente tomava banho na praia com sabonete. O médico indicava pegar sol – era bom p/saúde. O Dr. Pediatra Décio Martins Costa. Eram muitas crianças dentro d’água e nunca aconteceu afogamento. Tinha um caninho dentro da água (como uma boia) e dali as crianças não podiam passar. Ninguém ia p/o fundo, ninguém se afogava. O meu marido foi campeão de natação e ele ensinou as crianças da chácara a nadar no rio. Ele gostava de se atirar do trapiche e de sentar lá. Ele tocava instrumentos e fazia serenata. Havia sessões de cinema nos jardins da chácara, se colocava o projetor e passava os filmes. Era o programa dos adultos. Para as crianças tinha as histórias contadas pela vovó Nina. As crianças sentavam todas em volta da vovó para ouvir as histórias contadas por ela. E é isso que eu sei te dizer. Fomos muitos felizes aqui!

Chalé da Nina de 1927

Chalé da Nina de 1927
Fonte: Acervo da família Luce

 

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