Na primeira metade do século XX, as novas formas de usufruir o tempo livre, associadas ao conforto proporcionado pelos investimentos, tornaram alguns balneários da Zona Sul de Porto Alegre, lugares de veraneio, de descanso e de entretenimento. O lago Guaíba foi o grande impulsionador do desenvolvimento da região. Por meio dele, a população descobriu o veraneio em águas doces e próximas ao centro da cidade. Desta forma, criou-se uma prática agradável nos meses mais quentes do ano para aqueles que não podiam viajar longas distâncias até o litoral.

Família na Praia de Ipanema/1953. Acervo de Maria Hilma Cristóvão

Família na Praia de Ipanema/1953. Acervo de Maria Hilma Cristóvão

A importância do Guaíba remonta aos primórdios da ocupação de Porto Alegre, pois significou a permanência em suas margens, a solução para garantir a sobrevivência através da pesca e a construção de barcos, oportunizando o alargamento do universo conhecido pelo acesso a outras vias fluviais. Foi com o rio/lago que começou o povoamento e dali partiu a planificação urbana e a demarcação da cidade. Por isso, o Guaíba e sua cidade marcam, fortemente, a sensibilidade e a memória dos porto-alegrenses, vivendo juntos desde os tempos mais remotos, quando os primeiros habitantes, os índios, aqui chegaram. Já naqueles tempos, o lago foi nomeado assim, pois os guaranis o entendiam, sabiamente, como “águas do lugar redondo” ou “Gua-ybe” na língua tupi, que tem o sentido de “baía de todas as águas”. O Guaíba, portanto, está presente na história da cidade e de seu povo, pois por ele chegaram os primeiros colonizadores sesmeiros, açorianos,  viajantes, forasteiros e imigrantes. Navegando em seus afluentes e lagoas, fez-se a comunicação permanente com o mar, desenvolvendo toda a Província do Rio Grande do Sul. Foi com o veraneio nas margens do lago, no final do século XIX e início do XX, que a população descobriu a Zona Sul. Os locais escolhidos pelo Porto-Alegrense para atenuar o forte calor do verão foram, primeiramente, os balneários da Tristeza, deslocamento esse facilitado por uma linha de trem. Posteriormente, o fluxo maior de banhistas se deu na praia vizinha, o Ipanema. Entre os bairros praianos da Zona Sul, a Tristeza foi o primeiro que surgiu, ainda no século XIX. A partir do desenvolvimento impulsionado pelo trabalho dos colonos italianos e, posteriormente, alemães, a região se desenvolveu. Inicialmente com a agricultura e pecuária e tempos depois pelos serviços associados ao veraneio. A Tristeza abrangia uma área maior do que a atual, pois incluía os bairros conhecidos hoje por Vila Conceição, Vila Assunção e Pedra Redonda. Um pouco mais tarde, surgiu o balneário Ipanema a partir do loteamento idealizado e concretizado por Oswaldo Coufal, o qual se inspirou nas praias da Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro. Gradativamente, a paisagem antiga da zona balneária sul de Porto Alegre foi se alterando, desdobrando-se em outras formas. Seguindo uma linha do tempo, da antiga sesmaria e das fazendas dos grandes estancieiros, a região cedeu espaço para lindas chácaras e luxuosas vivendas de veraneio, principalmente nas vizinhanças, como a Pedra Redonda e a Vila Conceição.  Nesses locais, desenvolveu-se uma infraestrutura voltada ao turismo e ao veraneio, com a construção de hotéis, restaurantes, clubes e a melhoria nos meios de transporte, como o trem e o automóvel. Aliado a esse novo cenário moderno, o espaço começou a ser recortado por uma arquitetura de influência europeia que contemplava residências de luxo – as imponentes vivendas com praia particular. Eram novos moradores, os quais se configuravam em uma elite residente, muitas delas oriundas de famílias tradicionais e com poder aquisitivo, as quais desenvolveram suas sociabilidades e negócios à beira rio. Entre estas famílias, cita-se a do Comendador Castro, de Bernardo Dreher, de Oscar Bastian Meyer, de Waldemar Bromberg, do Comandante Booth, e de Fernando Gay da Fonseca, entre outros. A história do veraneio na orla do Guaíba não se esgota. Existe, ainda muito para registrar. Faz-se necessário que as histórias dos antigos veraneios nas águas do lago sejam reveladas, não apenas as da Zona Sul de Porto Alegre, mas também de outros lugares onde a deambulação foi prática constante desde a primeira metade do século XIX.

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