Na primeira metade do século passado, o balneário da Pedra Redonda, situado na Zona Sul da cidade, embora distante do centro, atraía o porto-alegrense devido às suas praias de águas limpas.  Em torno de 1898, Joahnn Pabst, um imigrante de origem alemã, seguindo a mesma tradição de outros teutos recém-chegados ao Brasil, adquiriu terras na região. A ideia era um lugar para descanso e lazer às margens do Guaíba. Passados alguns anos, Joahnn construiu sua casa de veraneio, transformando o local na chácara da Família Pabst.

Joahnn e Lina Pabst Acervo de Flávio Pabst

Joahnn e Lina Pabst
Acervo de Flávio Pabst

“A escolha do Brasil como país de destino, conforme relato de João Gastão Mostardeiro Pabst, se deu por influência de um amigo de Johann: o Comandante Booth, da marinha mercante, o qual não só conhecia Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, de viagens anteriores, como tinha propriedade próxima ao Rio Guaíba.  Este seu amigo, inclusive, serviu de intermediário na compra antecipada que Johann fez, ainda na Alemanha, do terreno na Pedra Redonda, bairro da Tristeza, onde moraria ao chegar. Era um terreno grande, às margens do rio Guaíba, distante do centro da cidade, mas que pelas suas praias era já um local de veraneio bem frequentado. Casa e terreno ficaram, posteriormente, conhecidos como a Chácara Pabst” (Flávio Pabst, 2014). 

Para Roberto Pellin, Joahnn teria comprado a propriedade na virada do século: “Em 1902, seu João comprou do seu Nicolau Ely, uma chácara na Pedra Redonda. Era a metade das terras do seu Ely, a parte da praia junto à chegada do trem. Após três anos, aí construiu sua casa de veraneio, onde em seguida passou a residir. O casal teve três filhos: Benno, Fritz e Lotário” (PELLIN,  1996, p. 162).

Proprietário de uma fábrica de gravatas e espartilhos, Joahnn Pabst possuía uma ótima situação financeira. Porém, com o período da I Guerra, Joahnn viveu momentos de dificuldade, conforme conta o neto Flávio Pabst: “Quando, em 1914, se iniciou o conflito mundial, Johann passou por dificuldades, pois como já havia se naturalizado brasileiro, foi tratado como estrangeiro em seu próprio país. Mais do que isso: sendo o Brasil um país inimigo, Johann foi tratado como tal e, suspeito de espionagem, foi preso. Após algum tempo na prisão foi solto, mas com a obrigação de se apresentar à polícia diariamente. Mais tarde, convencidas as autoridades de que poderia não ser culpado afinal, a obrigatoriedade de se apresentar à polícia passou a ser semanal, permanecendo assim por muito tempo”.

 

Família Pabst na Pedra Redonda/1900

Família Pabst na Pedra Redonda/1900

Em torno dos anos 1920, devido à morte do patriarca e aos problemas na fábrica ocasionados pela guerra, inicia um período de dificuldades para a família de Joahnn:

“(…) os negócios começaram a decair. Os espartilhos gradativamente deixando de ser usados e as vendas diminuíram  progressivamente. Tardiamente a fabricação deste artigo foi substituída pela de roupa branca: camisas, camisetas, cuecas e ceroulas. Dívidas surgiram. Lothário foi chamado a ajudar. (…) foi ser caixeiro viajante. Viajava com um malão cheio de roupas, o mostruário das peças que oferecia em lojas, pelo interior do Estado” (Flávio Pabst, 2014).

Com o fechamento da fábrica, a casa da família na cidade foi vendida e assim os Pabst fixaram-se na Zona Sul, em sua chácara de verão. Como alternativa para complementar a renda familiar, inauguraram no local um restaurante cujas opções para os frequentadores da praia eram refeições e bebidas. O empreendimento esteve sob a administração de Lothário, filho de Joahnn.

“Lothario (meu pai) abriu o restaurante para ajudar na renda mensal, necessária para a manutenção dos que ficaram sob seus cuidados. Durante o dia sua mãe Lina e a tia Maria cuidavam do restaurante. À noite, ao retornar do emprego, ele assumia” (Flávio Pabst, 2014).

O local logo ficou conhecido como “Restaurante Familiar Pabst”. Servindo sanduíches, bebidas e refeições, o estabelecimento tornou-se o primeiro na Pedra Redonda. Em tempos de férias e calor, era para lá que muitos turistas se dirigiam, a fim de aproveitar as atrações do lugar, as quais incluíam, principalmente, os banhos de rio.

Com o passar do tempo e o sucesso do balneário, o estabelecimento tornou-se uma referência na Pedra  Redonda.  Localizado no final da linha do trem e defronte ao  trapiche (onde atracavam os vapores que traziam os turistas), o estabelecimento os Pabst era um sucesso.

Trapiche da Pedra Redonda/1920

Trapiche da Pedra Redonda/1920

A construção de restaurantes e hotéis na Zona Sul no apogeu do veraneio se insere nesse universo de investimentos de alguns empreendedores que souberam aproveitar o momento propício ao turismo.

O  restaurante dos Pabst atendia a um público seleto que vinha em busca de lazer e recreio na região. Vizinho a outro estabelecimento, o do espanhol Gaspar Fuster, o restaurante dos Pabst também oferecia música da melhor qualidade.

Lotario (sem gravata) com os garçons em 1926. Acervo de Flávio Pabst

Lotario (sem gravata) com os garçons em 1926. Acervo de Flávio Pabst

Conta Roberto Pellin em “Revelando a Tristeza” que em torno dos anos 1930, Lotário, impossibilitado de manter o restaurante, o alugou para Jorge Thofehrn, fabricante de bebidas Thofehrn. Porém, o negócio não deu o resultado esperado, retornando a chácara para a família Pabst. Tempos mais tarde, o estabelecimento foi arrendado para outro empreendedor do ramo, Elias Chemale que, além de manter o restaurante, ampliou os negócios transformando a chácara em um hotel restaurante à beira rio.

Sob uma plataforma, que avançava três metros no Guaíba, havia, além do trapiche, um tablado com mesas e cadeiras para os fregueses. Ali, ficavam os vestiários e banheiros destinados aos visitantes que vinham somente passar o dia. Nos finais de semana, o tablado recebia as orquestras que  que tocavam tangos, uma forma de lazer destinada a um público de poder aquisitivo. O ponto dos Pabst se tornou conhecido e muito atraente, chegando ao seu auge na década de 1930, quando a beira da praia ficava tomada pelos veranistas.

Em torno dos anos 1940, o imóvel foi vendido. De restaurante familiar transformou-se em um espaço de recreação para integrar os profissionais de engenharia do Rio Grande do Sul. Em 1944, a antiga chácara passou a abrigar a sede esportiva da SERGS (Sociedade dos Engenheiros do Estado).  Devido ao forte calor, o local recebeu já no verão daquele ano, infraestrutura necessária para atender, ainda que de forma provisória, aqueles que procuravam a sede para recreio e descanso. A inauguração aconteceu em junho de 1945 e foi batizada de “Acampamento dos Engenheiros”.

Em 1963, a sede ganhou reformas, adequando instalações para suprir as necessidades de seus associados e familiares nos momentos de lazer. A compra de mais um terreno possibilitou a expansão do clube e a implantação de um departamento esportivo. Seguiram-se a construção de vestiários, churrasqueiras, canchas esportivas e um parque de recreação infantil. As piscinas foram inauguradas no ano de 1968. O propósito dos investimentos era o de acolher aos sócios e seus familiares nos finais de semana para momentos de confraternização e também de descanso.

Atualmente, nos espaços por onde circulam os sócios, também passeiam e brincam as crianças da Colônia de Férias da Duda. O local continua atraente, pois a meninada tem a oportunidade de, no recesso escolar do verão, aproveitar o lugar para brincadeiras, banhos de piscina, lanches e a prática de esportes. Passados mais de um século, o recanto bucólico da Pedra Redonda ainda cumpre a função pensada por Pabst e demais imigrantes alemães que descobriram a Zona Sul: promover o lazer e as sociabilidades à beira rio. As mudanças empreendidas desde então modificaram o cenário, entretanto, permaneceu uma opção para recreio, mesmo sem os divertidos banhos nas águas limpas do Guaíba.

Crianças brincando na Colônia de férias da Duda

Crianças brincando na Colônia de férias da Duda

Crianças brincando na colônia de Férias da Duda

Crianças brincando na colônia de Férias da Duda

Colônia de Férias da Duda/2014

Colônia de Férias da Duda/2014 Fonte: acervo da autora

 

 

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