Em janeiro dos anos 1970, a praia de Ipanema era um local aonde se dirigiam os porto-alegrenses que buscavam amenizar o forte calor. A orla fica tomada de gente. Lembro-me de que minhas primas tinham por hábito visitar-me – evidentemente, não pelos laços familiares, mas para desfrutar de banhos no Guaíba. Ainda que as águas já estivessem um pouco poluídas, os banhistas – mirins, como eu – insistiam naquela diversão. Os pais, via de regra proibiam tal prática – entretanto, nós, ainda crianças, burlávamos a vigilância para aquela brincadeira tão prazerosa que incluía os mergulhos, a coleta de conchas e o bate-papo na areia para secar o corpo ao sol.

Na Praia de Ipanema com meu irmão.

Na Praia de Ipanema com meu irmão. Acervo particular.

Numa dessas fugas tão frequentes, fomos apanhados em delito, o que nos rendeu umas boas chineladas e a proibição de sair de casa durante aquele verão. Anos depois, já na adolescência, a praia de Ipanema reunia todas as tribos. Chamavam-me a atenção as jovens bem postadas em carros conversíveis, ostentando elegantes chapéus e corpos esculturais e bronzeados, minimamente cobertos por tangas, moda originária de outra praia de Ipanema, a do Rio de Janeiro. Ao entardecer, os casais rumavam para a Taba, um ponto de encontro bastante conhecido na orla, para conversas regadas a chope e batatas fritas.

Restaurante TABA

Restaurante TABA. Acervo ZH.

Essas lembranças não trazem apenas saudades, mas a constatação de que há muitos anos não se usufrui o Guaíba e Ipanema como se gostaria. Um misto de tristeza e nostalgia pelas transformações ocorridas na região. E a ironia está no nome Ipanema, que na língua tupi significa “água que não presta”, antecipando assim uma condenação, pois as águas, antes límpidas e piscosas, hoje recebem os dejetos de esgotos, entre eles, o Capivara, o principal agente poluidor.

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