Põr do sol e aguapés no Guaíba

Põr do sol e aguapés no Guaíba

A água do rio sobe e desce, dia sim, dia não.  O aguapé surgiu com flores lilás. Apressado e vindo do rio Jacuí, deu trombadas no farol e na bóia do meio. Ah, surgiram cobras verdes, que foram confundidas com a paisagem imposta pela cheia. E todos, lá em casa, mudaram de lugar. As galinhas passaram a dormir no quarto do tio Joeli, os porcos invadiram a cozinha da vó Jorja, sabiá fugiu da briga, quero-quero partiu em debandada para o norte, lá para as Missões.  Lagoa dos Patos se assustou a princípio com os galanteios do senhor Minuano, mas como toda prenda apaixonada, acabou cedendo aos galanteios de tão conhecido gaudério.

Foi um verdadeiro reboliço na Ilha da Dona Pintada. Com todos os imprevistos, o senhor Pintado fugiu para os lados da Capital, deixando tão ilustre senhora desconsolada. Doutor Bagre, como é de se esperar, pegou carona no Minuano e voou até o Guaíba, para consolar Dona Pintada. Qual o quê, nada resolve, pois o senhor Pintado já andava longe. Enfurecido, o mestre Minuano revolta-se feito Farroupilha, chamando as águas da senhora Lagoa num combate incansável. Porém, seu astro rei, que a tudo assistia por detrás de seu enuviado exército, perdeu sua paciência e na manhã do terceiro dia do reinado do senhor Minuano, surgiu imponente e arrasador, enxotando o ilustre vento dos Pampas para as Plagas da Argentina.

E tudo voltou ao normal. Nossa velha casa do Cristal com seu ipê no fundo do quintal e sua sempre-viva entrelaçada na cerca voltaram a aparecer com suas flores amarelas e vermelhas. Tio Joeli não precisou mais dormir em companhia das galinhas e os porcos partiram em retirada da cozinha da vovó. O aguapé sumiu, deixando o rio novamente limpinho para aquele banho gostoso de improviso. E, por fim, as pedras do vovô se enfeitaram de limo, como um tapete verde. Foi quando, senhor e senhora Pintado, foram assistir ao pôr-do-sol lá pros lados do Guaíba. Seu quero-quero feito piá de estância, rompeu a porteira alvoroçado e o sabiá redobrou na mata, com seu canto alegre, fasfalhando a fatiota amarela. E a festa continua até hoje, dizem os habitantes do sul, principalmente as comadres faladeiras, até continuar o entendimento do casal pintado.

 

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