UM ROMANCE NA PRAIA DE IPANEMA

 

Gilda Marinho Fonte: Porto, Juarez

Gilda Marinho
                                                            Fonte: Porto, Juarez

Mulher exuberante, sensual e inteligente, Gilda Marinho marcou época nas primeiras décadas do século passado em Porto Alegre. Acostumada, ainda em sua terra natal (Pelotas), a desafiar costumes provincianos, Gilda foi logo notada pela sociedade gaúcha pela sua irreverência. Amada pelos homens, mas vista com maus olhos pelas esposas, as quais temiam por seus casamentos, Gilda Marinho era uma mulher de inúmeras faces. Na carreira destacou-se como jornalista, pianista, cronista, bibliotecária e vendedora de seguros. Na política era simpatizante do comunismo. Entre as muitas histórias sobre Gilda, uma se destaca: o envolvimento amoroso com homens ilustres e casados. Na década de 1930 teria tido um romance com o interventor Flores de Cunha, vinte anos mais velho do que ela. O cenário: o Balneário Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre.

Flores da Cunha Fonte: SCHIRMER, Lauro. "Flores da Cunha de corpo inteiro",

Flores da Cunha
Fonte: SCHIRMER, Lauro. “Flores da Cunha de corpo inteiro”,

A “amizade” teria iniciado em uma festa organizada no Cassino da Exposição Farroupilha, e se prolongou pelos meses de verão, com idas e vindas até a Praia de Ipanema, um local ainda bucólico e desconhecido dos porto-alegrenses. Conforme Juarez Porto: “Flores da Cunha, esquivando-se das responsabilidades palacianas e receoso das más línguas prontas a atacarem, convidou Gilda para namorarem na então praia de Ipanema, onde poderiam ficar à vontade. Na época, ir a Ipanema era uma viagem. Saíram pela manhã, levando inclusive um farnel e bebidas caso sentissem fome, tomando a estradinha que costeava o rio Guaíba até a Tristeza, e, de lá, o caminho acidentado até a praia de Ipanema, cercado de matos e morros. No Ford do governador iam apenas eles dois e o motorista, mas, atrás vinham mais dois carros lotados de guarda-costas, prontos a defenderem a intimidade e a vida do caudilho. Romântico, apaixonado pela mulher que lhe possibilitara um dia inesquecível, longe das atribulações políticas e administrativas, já ao cair da tarde, Flores acariciando-a sugere: – para tornar esse dia ainda lindo e completar a beleza deste por-do-sol, só faltava ver a senhora saindo destas águas, nua, vindo ao meu encontro. Certamente, o velhote jamais pensaria que Gilda tivesse a intrepidez de satisfazer pedido de origem mais lírica do que racional. Enganava-se. – Mande que seus homens virem de costas, que eu te atendo – disse sussurrante. Ao gesto do grande chefe, os capangas obedeceram, afastando-se alguns passos e virando-se de costas para o casal. Mansamente, Gilda foi despindo-se ante o olhar extasiado do caudilho, correndo nua pela areia até mergulhar seu corpo de Cobrinha nas águas do rio. Nadou encantadora como uma sereia de um lado a outro, próxima da praia, acompanhada pelo enlevado amante. E saiu das águas como uma Vênus feiticeira indo ao seu encontro arrebatada de amor.  Naquele instante, o batalhão de homens à volta não existia. Ambos eram um casal de namorados percorrendo emoções que só os apaixonados conhecem”.

Fonte: PORTO, Juarez. Gilda Marinho. 1985.

 

 

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