Praia da Tristeza/1900 Museu Joaquim José Felizardo. Fotógrafo Lunara. Fototeca Sioma Breitman.

Praia da Tristeza/1900
Museu Joaquim José Felizardo. Fotógrafo Lunara. Fototeca Sioma Breitman.

Segundo a historiadora e professora Hilda Agnes Hubner Flores, autora do livro “Tristeza e Padre Reus (1979)”, o bairro Tristeza deve seu nome ao fazendeiro José da Silva Guimarães Tristeza, um português, morador antigo do arrabalde, casado com uma das netas do primitivo sesmeiro Dionísio Rodrigues Mendes.

A Tristeza, assim como os demais bairros da Zona Sul de Porto Alegre, pertence, atualmente, a denominada Região Geral de Planejamento Seis[1]. Uma macro-zona caracterizada como região predominantemente residencial, estruturada com baixas densidades populacionais e integrada à paisagem natural. A zona apresenta como referências, o Parque Natural do Morro do Osso e o Lago Guaíba, os quais definiram a região como “Cidade Jardim” [2].

Estação Férrea da Tristeza - 1900Entre os bairros praianos da Zona Sul, a Tristeza foi o primeiro que surgiu, ainda no século XIX. Era um arrabalde que abrangia uma área maior do que a atual, pois incluía os atuais bairros Vila Conceição, Vila Assunção e Pedra Redonda. Com a chegada dos primeiros colonos italianos e alemães à região, tem-se um desenvolvimento econômico, motivado principalmente pela agricultura e pelos serviços associados ao veraneio. Os italianos se dedicaram, especialmente, à agricultura, e os alemães, mais tarde, se envolveram com os negócios relacionados ao turismo como restaurantes, hotéis, transportes, etc. O advento do trem impulsionou o desenvolvimento do arrabalde. Também conhecido por “O trenzinho da Triseza”, a locomotiva trazia veranistas até o fim da linha na praia da Pedra Redonda.

Tristeza/1920 Fonte: Museu Joaquim José Felizardo. Fototeca Sioma Breitman.

Tristeza/1920
Fonte: Museu Joaquim José Felizardo. Fototeca Sioma Breitman.

Em 1904, o viajante Vittorio Buccelli, responsável por relatar ao governo da Itália aspectos pitorescos e exóticos do Brasil, identificou alguns cenários da Zona Sul de Porto Alegre, entre eles os do bairro Tristeza. Na busca por estreitar os laços comerciais entre o Brasil e a Itália, intensificando assim a imigração, o viajante, por meio de uma literatura de viagem, recuperou informações importantes do antigo arraial com suas casas típicas de veraneio à beira rio – um local de lazer e de descanso[3], conforme ele. “Mais adiante, sempre à direita, destaca-se um grupo de casinhas alegres, numa praia encantadora e sorridente, que por uma estranha antítese chama-se Tristeza” [4]. Vittorio Bucceli definiu assim a Tristeza como um local de férias, para onde migravam, todos os anos, muitas famílias porto-alegrenses. Desta forma, apesar do nome melancólico, a Tristeza passou a significar alegria e recreação, transformando-se na primeira estação de veraneio dos porto-alegrenses, local onde famílias mantinham suas chácaras e moradias de verão à beira rio.

Banhos na Tristeza/1940 Fonte: acervo de Maria de Lourdes Mastroberti

Banhos na Tristeza/1940
Fonte: acervo de Maria de Lourdes Mastroberti

O que efetivamente encantava, por uma série de lindas atrações, comodidade de locomoção e proximidade da cidade era Tristeza, arrabalde situado em grande parte à beira-rio com espesso arvoredo e suas casas típicas de moradores permanentes e outras residências de famílias da capital. O rio, deslizando sereno e dominador, decorava as casas residenciais cheias de vida[5].

Entretanto, é importante ressaltar que antes do bairro Tristeza viver esse período de desenvolvimento relacionado às atividades de lazer, a região foi habitada por grupos descendentes do primeiro sesmeiro, já citado. Posteriormente, a região foi, gradativamente, sendo povoada por famílias oriundas de colonos italianos e alemães. Eram grupos que desenvolveram, especialmente, atividades agrícolas nas terras deixadas por Dionísio.

Esse lugar, como ponto de parada dos tropeiros que vinham de Itapuã, já era conhecido de longos tempos. Havia duas ou três casas à beira da estrada velha. Lá por 1875, à margem da praia, já contava de seis a oito casas, longe uma das outras. Entre os moradores, havia um cidadão chamado José da Silva Guimarães. Quando conversava sobre qualquer coisa, sempre dizia: – É uma tristeza![6]

José da Silva Guimarães, mais conhecido por Juca Tristeza, fixou moradia na área onde hoje se encontra o bairro Vila Conceição. Instalou-se, com sua família em uma área que logo se consolidou em uma estância. No local, precisamente no alto do morro da Conceição, residiu durante muitos anos. O chacareiro era genro de André Bernardes Rangel, primogênito de Dionísio Rodrigues Mendes, o primeiro sesmeiro da região (século XVIII), e foi a partir desse parentesco que pode herdar e multiplicar as terras que iam desde a Ponta dos Cachimbos, fronteira com a Pedra Redonda até a Estrada da Cavalhada, englobando todo o atual bairro da Tristeza. A área em torno da chácara se caracterizou por campos, matos e pelas praias desertas e águas limpas do Guaíba.

O que outrora se entendia por Tristeza era um arrabalde de maior extensão, pois incluía os bairros de Vila Conceição e Vila Assunção. O próprio povoador que deu nome ao bairro, José da Silva Guimarães Tristeza, tinha a sede de seu sítio na hodierna Vila Conceição, próximo à Rua Nossa Senhora Aparecida, segundo apurou em minucioso estudo o Monsenhor Ruben Neis[7].

Hilda Flores analisa o surgimento do bairro Tristeza a partir dos estudos do padre Ruben Neis[8]:

André morava em Ipanema e José da Silva Guimarães Tristeza, seu genro, na Vila Conceição, onde construiu a sede das suas terras na parte quase mais elevada da colina, nas adjacências da atual Rua Nossa Senhora Aparecida, onde é hoje a residência de Mario Martinez. O progenitor deste, Antônio Monteiro Martinez aproveitou velhos alicerces existentes no terreno[9].

Uma das versões mais aceitas a respeito da origem do nome “Tristeza” para o bairro, encontra-se nos estudos desse padre. Para ele, José da Silva Guimarães tornou-se conhecido pelo apelido de Juca Tristeza pelo fato de ter perdido os dois filhos mais velhos do sexo masculino, ainda pequenos. A partir de então, seguiu vivendo em melancolia. Quando nasceu o terceiro filho, em 1817, uma menina, ele registrou-a com o nome de Senhorinha Tristeza. A partir daí, todos ficaram conhecidos como a “Família de Tristeza”, a qual passou a usar o nome Tristeza em documentos oficiais, como registros de identidade. Para Flores “é lícito supor que a perda de seus dois primeiros filhos varões o deixou tristonho, fato que o espírito popular registrou, e que nem mesmo o nascimento de uma filha mulher pode curar” [10].

Com o falecimento de José Guimarães Tristeza, em 1826, a fazenda passou a ser conhecida por “A Chácara do Finado Tristeza”, denominação que perdurou por várias gerações. As terras trocaram de dono logo após a morte de Tristeza, passando para Manoel José Sanhudo, seu cunhado. “As terras de Guimarães Tristeza passaram às mãos de seu cunhado e aos filhos deste, recebendo povoamento mais intensivo a partir do último quartel do século XIX” [11]. Os descendentes de Sanhudo prosseguiram no ramo pecuarista e agrícola na região. Na árvore genealógica de Manoel José Sanhudo, disponibilizada na Internet, consta como sendo filho de André Bernardes Rangel, porém o fato carece de comprovação.

Portão da propriedade da família Martinez. Antiga sede dos padres Palotinos e antiga fazenda do Juca Tristeza. Fonte: acervo de Helga Piccolo

Portão da propriedade da família Martinez. Antiga sede dos padres Palotinos e antiga fazenda do Juca Tristeza. Fonte: acervo de Helga Piccolo

Em 1876, Sanhudo vendeu a fazenda para Guilherme Ferreira de Abreu Filho. Eram terras que iam desde o Lago Guaíba até a Estrada da Cavalhada. Em 1895, o local foi transformado na residência dos padres palotinos, os quais vieram com o propósito de dar atendimento aos imigrantes italianos – os primeiros colonos da Tristeza. Os padres compraram a chácara e fixaram ali residência e capela. No ano de 1923, os palotinos venderam as terras para Antônio Monteiro Martinez, e foi ele que, em 1930, em homenagem a sua esposa, Zulmira Martins Martinez, devota de Nossa Senhora da Conceição, idealizou e criou o loteamento Vila Conceição. Os primeiros lotes foram vendidos a grupos de origem alemã, atraídos, principalmente, pela proximidade com o lago, viabilizando assim, a prática de esportes náuticos e os banhos no Guaíba. Desta forma, as terras que outrora se configuraram como de cultivo de hortifrutigranjeiros e criação de animais, transformaram-se em confortáveis propriedades para uso do lazer e descanso de famílias alemãs.

[1] PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Secretaria do Planejamento Municipal. Regiões de Planejamento e Macrozonas com bairros vigentes. Disponível em: <http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/

prefpoa/spm/usu_doc/regpla+macroz+bairros_vig.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2013.

[2] O conceito de Cidade Jardim foi proposto no final do século XIX. O objetivo era unir os aspectos de cidade (empregos e infra-estrutura) com os do campo (natureza e o ar mais puro). Desta forma, a cidade atrairia a população a residir nestes locais mais campesinos, como o bairro Tristeza.

[3] MACHADO, Janete da Rocha. Um viajante italiano e seu olhar sobre a Zona Sul de Porto Alegre na primeira metade do século XX. Artigo elaborado para a disciplina “Sociedade, Urbanização e Imigração V” do Curso de Pós-Graduação da PUCRS, ministrada pela professora Dra. Núncia Constantino. Porto Alegre, I/2012.

[4] BUCCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande del Sud. Milão: Officine Cromo – Tipografiche L. P. Pallestrini & C, 1906, p. 58.

[5] SANMARTIN, Olyntho. Um ciclo de cultural social. Porto Alegre: Sulina, 1969, p. 43.

[6] PELLIN, Roberto. Revelando a Tristeza. Porto Alegre: Metrópole, 1979, p. 9.

[7] FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006, p. 407.

[8] O Padre Celestino Ruben Neis nasceu na cidade de Bom Princípio em 1925. Foi ordenado sacerdote do Clero Regular em 1949. Como diretor do Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre empreendeu pesquisas nos registros civis (nascimentos, casamentos e óbitos) e testamentos. Como historiador e genealogista, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico do RS em 1972 (MONTEIRO, Charles. Porto Alegre e suas escritas: história e memória da cidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006, p. 378).

[9] FLORES, Hilda Agnes Hubner. Tristeza e Padre Reus. Porto Alegre: Elape, 1979, p. 26.

[10] FLORES, Hilda Agnes Hubner. Tristeza e Padre Reus. Porto Alegre: Elape, 1979, p. 27.

[11] Ibidem, p. 27.

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