Proprietário de uma chácara na Pedra Redonda, que na época pertencia ao bairro Tristeza, Zona Sul de Porto Alegre, Oswaldo Aranha utilizou o local para reuniões de preparação ao Movimento de trinta. “A casa de Osvaldo Aranha, na Tristeza, tornou-se sede partidária. A qualquer horário era solicitado, recebia sem dificuldades, com expressão dominadora sobre o interlocutor sem perder a cordialidade” (FLORES, p.12). O movimento revolucionário de trinta foi gestado pela determinação e organização de Oswaldo Aranha. Getúlio afirmaria, tempos depois, que Aranha foi o grande “animador da Revolução”. Góes Monteiro resumiria o que todos os participantes sabiam: “Oswaldo Aranha era a alma do movimento” (STANLEY, p. 40). Com um invejável dom de convencimento e uma vivacidade intelectual, Aranha tornou-se o “epicentro de um movimento vulcânico”, segundo o político João Neves. As reuniões, realizadas em diversos lugares de Porto Alegre, fortaleciam e delineavam a concretização do movimento. Um desses lugares estratégicos e de encontros secretos entre políticos da época foi a Chácara de Verão de Oswaldo Aranha, na Tristeza. Era lá que os ideais em torno da tomada do poder federal por Getúlio Vargas tomavam força.

Revista do Globo/Edição Especial de 1931

Imagem da casa na Pedra Redonda  Fonte: Revista do Globo/Edição Especial de 1931

 

Médico e amigo particular de Oswaldo Aranha, Dr. Antonio  Saint Pastous de Freitas recorda como era a propriedade naquela época: “Oswaldo Aranha residia no subúrbio da Pedra Redonda. Sua vivenda era pequena para acolher tantos amigos, e os conspiradores, de todas as procedências. Portas sempre abertas, e repletas as salas” (Páginas da Vida, 89). A residência na Zona Sul foi adquirida no final da década de vinte, com o propósito de lazer e descanso para a família. Com o passar do tempo, ela se transformou também em residência oficial de Oswaldo Aranha, e, posteriormente, como a sede partidária de políticos envolvidos com a Revolução de 1930. “Em 1929, Oswaldo compra uma chácara em nome de seus quatro filhos no arrabalde da Tristeza” (LAGO, 233). O local era muito aprazível e tranquilo, pois era cercado por uma exuberante mata e próximo ao Guaíba. Receber os amigos era uma constante na vida de Aranha, conforme deixou registrado seu amigo e aliado Lindolfo Collor: “revejo a tua chácara e tenho saudade das boas horas que lá passei contigo e com tua gente” (LAGO, 233). As primeiras reuniões de preparação ao movimento aconteceram secretamente. Os convidados entravam e saíam da chácara sem despertar a atenção e a curiosidade dos vizinhos. Até porque havia poucos vizinhos, entre eles, sobrenomes conhecidos do meio empresarial da época, como Ritter, Bier, Bromberg e Bins. A região se configurava em grandes extensões de terras com suas vivendas e mansões de veraneio de famílias com poder aquisitivo, sendo a maioria delas de origem alemã. Algumas dessas chácaras possuíam também praia particular e ancoradouro próprio para barcos, pois os grupos gostavam de praticar esportes no rio. Outras propriedades possuíam, além da residência central, piscinas, jardins, hortas, pomares e casas anexas para os empregados. O local era distante do centro de Porto Alegre e o acesso pelas estradas era tão precário que inviabilizava a chegada rápida ao subúrbio. Por isso, poucos tomavam conhecimento acerca dos acontecimentos transcorridos no interior da chácara naquele ano de 1930. Registros na imprensa não eram muito comuns, porém em outubro de 1930, a Revista do Globo publicou foto da chácara em uma edição especial sobre a Revolução em 486 páginas.  A legenda da foto informava: “Dois aspectos da chácara de Oswaldo Aranha na Tristeza onde o animador da Revolução teve a primeira entrevista com o Cap. Luiz Carlos Prestes”.  A reportagem mostrava, portanto, dois ângulos da fachada da residência. Na imagem via-se a entrada principal com pilares ao estilo grego e uma escadaria com corrimão bem clássico de balaústre. Havia também duas janelas grandes decoradas com vitrais (possivelmente coloridos) e um avarandado típico de casas de veraneio. É possível supor que a confortável varanda servisse para conversas de final de tarde, permeando, assim um cenário social burguês em meio à natureza. Para o historiador e professor da PUCRS Juremir Machado, a imagem, além de servir para inspiração de seu romance “1930: Águas da Revolução”, não deixa dúvidas quanto à natureza da conspiração e de seus participantes: “Imaginamos conspiradores ao estilo dos guerrilheiros de Sierra Maestra. Nossos revolucionários, no entanto, eram homens que já estavam no poder regional” (Correio do Povo – 30/10/2010). Para Juremir, portanto, eram políticos que em nada lembravam revolucionários radicais, pois eles “moravam em belas casas e conspiravam em lugares inusitados, nas suas mansões, no palácio Piratini, nos melhores hotéis da capital e nos quartéis”  (Correio do Povo – 30/10/2010).

 

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