Fernando com a esposa e a filha em Ipanema. Acervo particular

Fernando com a esposa e a filha em Ipanema. Acervo particular

Fernando Gay da Fonseca herdou do pai o gosto pela Zona Sul de Porto Alegre. Aos dezessete anos passou seu primeiro veraneio na praia de Ipanema, na Orla Sul da cidade, quando a região ainda era considerada um balneário. Desde então, ele e toda a família nunca perderam os laços com o bairro e com o Lago Guaíba. Apaixonado, como ele mesmo dizia, por Ipanema, Fernando, entre uma viagem e outra ao exterior, em missão de embaixador, ou residindo na capital federal, assumindo atividades no âmbito público, sempre voltava para Ipanema, local onde estavam suas raízes e onde morou até seu falecimento. Da confortável varanda de sua residência podia ver e admirar o rio. E era lá que aconteciam as conversas entre Fernando e personalidades do Estado e do País.

 

 

Muito bem relacionado, Fonseca recebia em sua casa, em Ipanema, pessoas influentes, não só do meio empresarial, mas também do político do Rio Grande do Sul e do Brasil. O propósito de tais encontros era, normalmente, o de aconselhamento, em períodos de crise. Entre essas personalidades, pode-se citar José Loureiro da Silva, prefeito de Porto Alegre em dois momentos (1937 a 1943 e 1960 a 1964) e amigo particular de Fernando de longa data. Loureiro da Silva costumava visitar Fernando Gay da Fonseca em sua casa em Ipanema para conversarem sobre política e sobre outros assuntos. “Loureiro tinha encantos por Ipanema. Ele veraneou aqui por dois ou três anos. Mas aí Ipanema já começou a ter cheiro de bairro. Ele adorava sentar aqui e conversar. Vinha me ver todos os dias quando eu estava veraneando. E sentávamos no avarandado do chalé”.

Reconhecido como um grande urbanista, Loureiro da Silva se destacou pelas obras implementadas na cidade de Porto Alegre, entre elas, o saneamento do Arroio Dilúvio.  A recanalização do Arroio Dilúvio para o curso atual (Avenida Ipiranga) teve início em 1940 e mudou o traçado inicial, o qual passava pela Antiga Ponte de Pedra (atualmente no Largo dos Açorianos) indo desaguar ao lado da Usina do Gasômetro. A obra foi necessária diante dos problemas causados pelas inundações do arroio. A cada chuva forte os moradores dos bairros às margens do Dilúvio viam as águas invadirem suas residências. Loureiro foi um grande ambientalista quando ainda não se falava sobre o assunto. Ele comprou os 1.300 hectares do Parque Saint Hilaire e propôs a transferência do Hipódromo do Moinhos de Vento para o Cristal, para que se construísse no local o Parcão, tornado realidade por Thompson Flores. Da sua segunda administração, Loureiro conseguiu sanear as finanças da prefeitura, restaurando a credibilidade no governo municipal. São obras reconhecidas em sua primeira gestão, entre outras: as avenidas Farrapos, Salgado Filho, André da Rocha e Jerônimo de Ornellas.

Para a Zona Sul da cidade, o prefeito também tinha projetos, conforme relembra Fonseca: “O Trenzinho da Tristeza descia por debaixo da ponte da Vila Conceição. Tanto que o Loureiro da Silva tinha um projeto de uma avenida que substituísse os trilhos do trem. Ele queria muito alargar isso tudo aqui”.

Loureiro presente na inauguração do Santuário de Ipanema.

Loureiro presente na inauguração do Santuário de Ipanema.

A confiança e a amizade de Loureiro por Fernando ajudou-o em muitos momentos, principalmente, diante das crises, decorrentes de seu segundo mandato na Intendência.  Segundo Gay da Fonseca:

“Quando ele estava muito nervoso, o secretário dele ligava para mim e pedia: Dr. Fernando, pega o homem aqui e leva para Ipanema. E eu dizia: vamos Loureiro, vamos embora, me leva de carro que eu preciso ir para casa. E vínhamos conversando e à medida que descia a Pedra Redonda, e o Loureiro enxergava a Pedra Redonda e o Guaíba, ele então acalmava. Ele era uma figura fora de série”.

Fernando relembra ainda com pesar o dia da morte do amigo:

“No dia do enterro dele eu estava com pneumonia. Tinha chegado da Europa, eu viajei muito e a mudança de temperatura me deu a pneumonia. E eu não pude ir ao enterro dele. Eu morava, na época, em um edifício que era da minha família, na Praça da Matriz, e eu vi passar o caixão pela janela do meu quarto. Senti muito a morte dele, pois eu gostava muito do Loureiro”.

Para Gay da Fonseca, o Loureiro foi um grande urbanista sem nunca ter sido engenheiro, pois ele tinha vocação urbanística, gostava muito da sua cidade. “Foi uma das grandes figuras públicas que eu conheci”.

(Fernando Gay da Fonseca faleceu em 03 de fevereiro de 2017)

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