Mercado Público/1875
Fonte: Museu Joaquim J. Felizardo

“Uma cidade, um país, um lugarejo”. A canção desprende-se do rádio e invade o espaço restrito do meu carro. Presto atenção à letra e fico imaginando essa cidade, a minha Porto Alegre, local onde estão minhas referências. Uma cidade repleta de histórias, farto material para minhas pesquisas acadêmicas. É inevitável não aguçar a memória, trilhar o imaginário e tentar recuperar como era essa capital de antigamente. Assim, penso na obra “Os cães da Província” e as imagens narradas vão, lentamente, se delineando no meu imaginário. As Docas, o Mercado Público, o Gasômetro. A Rua do Arvoredo, o açougue de linguiça humana, o Areal da Baronesa. Lembranças que vão longe, mas que se traduzem no imaginário daqueles que um dia ousaram vivenciar sua cidade. Percebe-se, assim, um cotidiano, notadamente mais tranquilo, mais humano. Quase sem compromissos. Não importa a pressa. Não há estresse, nem o sentimento de viver intensamente, como se o tempo fosse esgotar-se. O lazer resumia-se ao cinema de rua, à confeitaria Matheus, ao chope do Chalé da Praça 15. Passear na Rua da Praia e na Praça da Alfândega, admirando os velhos prédios históricos. Hoje, no espaço modificado da cidade, onde arranha-céus quase impedem a luminosidade do sol, habitam pessoas apressadas, distraídas e indiferentes. Os shoppings atraem para outras formas de lazer, seduzindo a todos. No entanto, como diz a canção – “és uma deusa, com suas nuanças, que te debruças soberana todas as noites para mirar-te nas águas do teu guardião”. E segues, mesmo com tuas mutações e novos personagens, inspirando poetas e historiadores como eu.

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