Boate do Avião
Acervo de Homero/Relojoeiro da Tristeza

Nos anos setenta, passear aos domingos em Ipanema, Zona Sul de Porto Alegre,  significava passar em frente ao famoso avião DC3 da VARIG que ficava na Avenida Cel. Marcos, próximo ao Morro do Sabiá[1]. A aeronave desativada foi transformada em boate restaurante, servindo como um ponto de encontro de casais que utilizavam o espaço para jantar, dançar e namorar. O “point” marcou época em Ipanema, sendo conhecido como a “Boate do Avião”. A aeronave foi adquirida pelo empresário Manoel Guerino Calcanhoto[2], morador do bairro, que o transformou em um espaço de lazer à beira do Guaíba. Com a retirada de linha dos DC3 pela Companhia Aérea, na década de sessenta, tornou-se moda e um bom negócio fazer bares e restaurantes no seu interior. Em Ipanema, o antigo avião possuía dois ambientes: o restaurante e a boate. E para isso, foi viabilizada uma expansão nas dependências do DC3. Sobre a chegada do avião até o bairro, recorda um antigo morador da Tristeza, bairro vizinho a Ipanema: “Todos correram para ver o avião passar. Era um gigante pelas ruas aqui da Tristeza. As pessoas se posicionaram em frente aos portões de suas casas para vê-lo passar. A avenida principal do bairro ficou movimentada. Primeiro, passou o miolo da aeronave, em um grande caminhão, logo após, vieram as asas separadas, em outro caminhão. Foi um grande acontecimento. Parou todo o trânsito” (Homero, relojoeiro da Tristeza). Alguns veranistas da Pedra Redonda também aproveitaram o espaço de lazer. “Eu lembro  de ir jantar lá no verão de 1974. Era muito gostoso e inusitado. Na verdade, como veraneávamos ali perto, fui mais de uma vez. Penso que tinha uma danceteria ali também.  Pena que numa tempestade, um raio acabou com aquele lugar tão diferenciado!” (Gina Luce, moradora da Pedra Redonda). Muitos vinham de longe para aproveitar o restaurante do DC3, avião que marcou época na aviação civil da extinta VARIG. “As minhas lembranças são dos anos 1978, 1979. Eu era noiva e frequentava a Boate do Avião. Eu nunca frequentei o restaurante.  Íamos direto para a boate, pois gostávamos muito de dançar, e lá o repertório era muito bom . Naturalmente, a música era eletrônica, então, o DG devia ser muito bom. Era bem frequentado e muitas noites encontrávamos amigos e conhecidos” (Martha Leão, antiga moradora da Pedra Redonda). ” Eu lembro e frequentava. A comida era boa, tinha pratos com nomes relacionados à aviação. Além do restaurante, também tinha a boate, era bom, pois tu jantavas e depois tinha a dança, eu adorava. Eu lembro pouco do anexo, mas eu acho que servia também para esperar, porque tinha muito movimento no final de semana. Não era muito grande, tinha a pista de dança, as mesas ficavam ao redor, tinha o bar, a recepção e a cozinha. Era um lugar bem frequentado, não era muito barato, mas tinha muito movimento. Se tu não chegasse cedo, tinha que esperar. Lembro dos boatos em relação ao avião. Passei lá no dia seguinte ao incêndio, estava só o esqueleto. Tudo estava queimado, mas não se sabe o que aconteceu de fato. Era muito bom!” (Gina Medeiros de Albuquerque).

Após poucos anos de uso, o avião foi sucumbido por um incêndio. “Foi um incêndio provocado por um raio que caiu nele, morrendo um funcionário da casa, que dormia no local. Ela (a boate) sempre esteve ativa, e nunca foi interditada. Tive o privilégio de ser o instalador do equipamento de som, que foi fabricado ali perto na indústria Eletrônica Coester, a mesma do Aeromóvel” (Paulo Leonardi- depoimento publicado no Blog Memórias de Ipanema). Segundo alguns frequentadores assíduos, o local servia boa comida e tinha um tratamento “’vip” para uma classe social de poder aquisitivo, a qual frequentava o estabelecimento, e se divertia nas noites frescas da Zona Sul de Porto Alegre.

Avião após incêndio
Fonte: acervo familiar

Atualmente, um similar ao DC3 que abrigou a boate do Avião de Ipanema, pode ser visitado no espaço do Boulevard Laçador, localizado na Avenida dos Estados, n. 111, próximo ao Aeroporto. O “Varig Experience”  traz a exposição desse avião que foi totalmente restaurado para visitação. Conheça mais sobre o projeto através do site www.varigexperience.com.br.

Eu e ao fundo o DC3 restaurado.

Informações sobre a exposição

[1] Atualmente é o Condomínio Las Roccas.

[2] Memórias de Ipanema – Disponível em https://www.facebook.com/groups/414898895195522/

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