O Estado Novo, governo ditatorial de Getúlio Vargas, teve início no Brasil em 1937, coincidindo com o período em que o partido nazista assumiu o poder na Alemanha.  O fortalecimento de regimes totalitários na Europa, entre eles o nazismo, encorajou Vargas na instauração de um regime ditatorial no País. A decretação do Estado Novo visava a um maior intervencionismo estatal, eliminando assim o liberalismo decorrente da Constituição Liberal de 1934. Pensava-se que a crise da liberal-democracia só seria solucionada diante de um poder forte, autoritário e estabilizador da ordem. Assim, o ano de 1937 ficou fortemente marcado como o período em que o governo implantou a censura aos meios de comunicação, como rádio, revistas e jornais. Também houve censura as artes, ao cinema, o teatro e a música. Além disso, foi proibida a prática de qualquer atividade de natureza política dos estrangeiros residentes no país, entre eles os alemães. A perseguição a esses grupos foi intensa em algumas cidades do Estado. Neta de imigrantes alemães, Rita Bromberg Brugger (88 anos)  relembra alguns episódios deste período em Porto Alegre.

Rita no colo do bisavô na chácara da Pedra Redonda. Acervo da família.

Esses grupos de alemães não podiam mais organizar, criar ou manter sociedades, fundações, companhias, clubes e estabelecimentos de caráter político. O Estado Novo forçou a uma integração dos alemães e de seus descendentes que viviam em colônias isoladas no Sul do País aos costumes brasileiros. Em muitas ocasiões agiu com brutalidade e força contra imigrantes humildes que não mantinham qualquer relação com a Alemanha nazista. Muitos imigrantes alemães foram perseguidos e forçados a se “abrasileirar”. O caso dos teuto-brasileiros é peculiar porque formavam comunidades isoladas que mantinham as tradições e utilizavam quase que exclusivamente o idioma alemão em suas residências e também nas escolas. Apesar de ter vários simpatizantes da Alemanha Nazista, o governo do Estado Novo preferiu manter uma política de apoio aos Estados Unidos em troca de benefícios econômicos e de seu processo de industrialização que se iniciava. Diante deste quadro ditatorial do governo brasileiro e da Segunda Guerra Mundial, a Região Sul, onde a imigração alemã era uma realidade forte, passou a ser fortemente reprimida. Porto Alegre, neste período, possuía muitos descendes de alemães, entre eles comerciantes e industriais, grupos em ascensão na cidade. Algumas das atividades econômicas desenvolvidas por esses grupos eram as de importação/exportação de produtos diversos, os quais possibilitaram, com o sucesso dos negócios, o acesso ao alto comércio do Estado. Entre os grandes importadores figuram nomes com os Bromberg, também proprietários de grandes casas comerciais em Porto Alegre. 

Rita com o pai – Paulo Bromberg. Acervo da família.

A perseguição aos alemães teve início a partir da década de 1930, motivada pela ideologia do Estado Novo e de seu governo. Na época, os alemães não podiam falar a sua língua mãe para se comunicar, caso contrário, seriam presos. Rita Bromberg Brugger, descendente de imigrantes alemães, ex-moradora da Pedra Redonda, Zona Sul de Porto Alegre, conta alguns detalhes desse momento vivido por seus familiares e amigos em Porto Alegre:

Rita em foto atual. Acervo da família.

“No ônibus, bondes, etc, havia cartazes: ‘é proibido falar alemão, italiano e japonês’. Meu pai, voltando do trabalho de ônibus (nem todo o mundo tinha carro naquela época), uma senhora que morava na Vila Conceição, obviamente não gostava do meu pai, mandou o motorista esperar na parada em frente da polícia na Tristeza, para subir ligeirinho, e denunciá-lo, que falou alemão. Tiraram-no do ônibus, ele teve que declarar que era mentira. No fim soltaram-no, sem precisar pernoitar na cela de prisão, que ainda hoje existe, mas acho que não é mais prisão, fica embaixo da escada de acesso com 3 janelinhas. E mais uma vez ele foi chamado para depor, depois que uma empregada da casa encontrou um cartão postal no lixo- uma foto de uma pontezinha sobre um riacho desconhecido no Rio Grande do Sul. Alguém tinha marcado à lápis, a ponte com um X. Empregada e polícia suspeitaram que fosse um  sinal para o Hitler mandar demolir a ponte com bombas. Felizmente,  dispensaram meu pai de passar uns dias naquela cela debaixo da escada. Concluíram que se fosse realmente um aviso para a Alemanha, não teria parado no lixo. Como meu pai era brasileiro, nasceu em Porto Alegre, como também o pai dele (o  avô Martin é que veio da Alemanha) não invadiram nossa casa para vasculhar por tudo, como o fizeram na casa do meu avô Waldemar Bromberg (naquela casa lá na Pedra Redonda). Levaram tudo o que interessava, a máquina fotográfica, livros científicos (em português), rádio, etc. O meu pai gostava de, nos fins de semana, andar pelas colônias e olhar as terras. O sonho dele sempre foi ter uma fazendinha. Os coitados dos velhinhos, que nunca aprenderam a falar o português, íam correndo se esconder nos mato. Teriam sido levados e postos em cana. Havia um amigo nosso, pastor da Alemanha que sobrevivia dando aulas particulares  de religião e história da arte. Era sozinho e alugava um quarto em Canoas. No inverno se aquecia com um daqueles aquecedores elétricos. Com a conta de energia um pouco alta, descobriram que, por meio daquele aparelho (um hemisfério de cobre- parecia um sol) mandava notícias para a Alemanha.  Sofria de Parkinson. Escondia as mãos, sentado em cima delas. Assim mesmo, levaram preso para uma prisão comum no interior do Estado. Durante um ano teve que dividir a cela com assassinos e outro tipos. Os alemães eram proibidos de veranear no litoral, pois poderiam mandar segredos estatais,  não sei como para a Alemanha. Diretamente sobre ou dentro do Oceano Atlântico até Berlim! Assim  vetaram a construção de madeira para sustentar um reservatório de água, para construir a nossa casa de veraneio na praia, perto de Torres. Poderia ser uma antena para comunicar-se diretamente com o 3º Reich. Durante a 2ªguerra,  muitas vitrines de lojas com nome alemão( e como tinha nome alemão !)foram atacadas. Quebra-quebra geral e saques. No Varejo Bromberg, na rua dos  Andradas,  quebraram os vidros, demoliram as louças , cristais, mas a polícia interveio antes de estragos maiores.

Lojas Bromberg após incêndio criminoso. Acervo da família.

O clã dos Bromberg: alemães empreendedores em Porto Alegre. Acervo da família

 

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